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Na figura desse Papa "vemos pela primeira vez o Papado medieval em toda sua concepção grandiosa e sua intransigência necessária, e nele resplandece o duplo elemento que garante a vida divina da Igreja: autoridade e unidade".

Quando a Fortaleza da alma cristã doma a rudeza pagã

Átila, Rei dos Hunos, era um chefe bárbaro temido. Cruel e implacável com seus adversários. Ele mesmo se auto intitulava o "Flagelo de Deus". Destruiu, praticamente tudo, na Gália. Saqueou Tongres, Treves e Metz. A cidade de Troyes não foi destruída graças a intervenção de São Lupo, e o mesmo aconteceu com Orleans que foi salva por Santo Aniano.

Embora tendo sofrido uma série de derrotas nas planícies de Chalons, graças aos esforços militares conjuntos de Aécio, Meroveu, rei dos francos, e Teodorico, rei dos visigodos, Átila não desistiu de seus intentos, não desanimou.

Sua sanha destruidora voltou-se para o norte da Itália, destruía tudo que podia a ferro e fogo. Quem conseguia, fugia de suas incursões destruidoras. Muitos se refugiaram nas pequenas ilhas existentes nas lagunas do Mar Adriático, onde deram origem à cidade de Veneza.

Átila atacou e saqueou Milão. O imperador Valentiniano III, não se julgou protegido em Ravena e fugiu para Roma. Mas, a meta de Átila era dominar Roma, capital do Império, sede do Papado, centro da Igreja Católica. E não demorou muito para o bárbaro chegar às portas da Cidade Eterna. Invasão, morticínio, destruição e saques era o que se esperava da ação iminente do "Flagelo de Deus".

Sem condições de se livrar dele, o Imperador, o Senado e povo romanos, num lance que depois mostrou-se ter sido de bom senso, imploraram socorro ao Sumo Pontífice. Pediram ao Papa que salvasse Roma da invasão. A missão do Vigário de Cristo era clara e de tremenda responsabilidade. Sua missão não era apenas defender Roma. Ele deveria salvar também sua pátria, seu povo e o mundo cristão: uma tarefa nada fácil, e de sucesso imprevisível.

Pastor que se expõe

Como Pastor que deseja sempre preservar a vida de suas ovelhas, o Papa aceitou o encargo de enfrentar o "Flagelo de Deus". Como desdobramento de sua ação ele estaria defendendo a Igreja, o Império, o Ocidente.

Além de demonstrar não ter medo, ele dava mostras de que acreditava no auxílio sobrenatural, na importância do Papado e na força dos símbolos religiosos. Sem perder tempo, revestiu- se dos paramentos pontificais reservados para as maiores solenidades e, acompanhado por sacerdotes e diáconos também em trajes sacerdotais, o Papa pôs-se a caminho para enfrentar o temível Rei dos Hunos, em Peschiera, uma pequena cidade próxima de Mântua.

O Papa que não tinha soldados a sua disposição, foi ao encontro do conquistador, que, contra toda a expectativa, o recebeu com honras. E mais, Átila desistiu de seus objetivos e, cessando as hostilidades, atravessou os Alpes, retornando para sua terra, sem atacar Roma. Era o ano de 453.

O que se passou com "Flagelo de Deus" para agir assim?

Os bárbaros perguntaram a seu chefe por que, contrariando seu costume, havia mostrado tanto respeito para com o Papa. Átila respondeu que "não foi a palavra daquele que veio me encontrar que me inspirou um medo tão respeitoso; mas eu vi junto ao Pontífice um outro personagem, de um aspecto muito mais augusto. Venerável por seus cabelos brancos, que se mantinha de pé, usando hábito sacerdotal, com uma espada nua na mão, ameaçando-me com um ar e um gesto terríveis, se eu não executasse fielmente tudo o que me era pedido pelo enviado". Esse personagem que causava terror a Átila era o Apóstolo São Pedro que tinha a seu lado, segundo outra tradição, o Apóstolo São Paulo que também aterrorizou o Bárbaro.

E que Papa era esse?

Mas, quem era esse Papa que conseguiu dobrar o "Flagelo de Deus" e salvou o ocidente?

Seu nome era Leão III, mais corretamente, São Leão III. Ele era um homem que, segundo seu contemporâneo São Próspero da Aquitânia, "abandonou-se ao auxílio divino, que nunca falta ao esforço dos justos, e o êxito coroou sua fé".(J.B. Weiss, História Universal, Tipografia La Educación, Barcelona, 1927, tomo IV, p. 328)

O episódio que se deu com Átila foi uma das grandes coisas que fez. Por esse fato e por tudo mais que realizou no seio da Igreja com repercussões imediatas no campo temporal ele foi chamado Magno (grande) e é mais conhecido na História como São Leão Magno. Sua festa é liturgicamente celebrada na Igreja Católica no dia 10 de novembro.

Traços da vida São Leão Magno

Ele nasceu em Roma, de pais toscanos, entre os anos 390 e 400, portanto, no final do século IV ou começo do V.

Em sua juventude, como estudante, distinguiu-se nas letras profanas e na ciência sagrada. Dele afirmou-se: "Deus, que o havia destinado a obter brilhantes vitórias contra o erro e a submeter a sabedoria do século à verdadeira fé, tinha posto em suas mãos as armas da ciência e da verdade".(Les Petits Bollandistes, Vies de Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo IV, p. 328).

Tornando-se arcediago da Igreja romana, serviu aos Papas São Celestino I e São Sixto III. Foi um hábil diplomata. E por isso, nesse campo tão delicado do relacionamento humano, foi designado para várias missões. Uma delas deu-se no ano 440, quando ele foi enviado pelo Imperador Valentiniano III para a Gália com a tarefa de reconciliar dois dos mais famosos personagens do Império.

Escolhido Papa

Em agosto de 440, quando faleceu o Papa, ele ainda se encontrava na Gália onde acabara de reconciliar os generais Aécio e Albino. Mesmo estando distante de Roma, Leão foi escolhido para suceder São Sixto III no Trono Pontifício.

Então, foram enviados emissários para convidá-lo a vir tomar conta de sua pátria e de sua Igreja. Ele veio e foi ordenado bispo, num domingo, dia 29 de setembro de 440.

Como Papa

A afeição que os romanos lhe testemunharam, quando de sua entrada na cidade, deu-lhe esperança de que poderia conduzir esse povo com facilidade e levá-lo ao bem, sem restrições.

São Leão III, o quadragésimo quarto sucessor de São Pedro não se enganou: o povo o admirava e teve por ele grande estima e submissão.

Pouco tempo depois de sua aclamação, pedia ao povo romano reunido na basílica de São João de Latrão: "Eu vos conjuro, pelas misericórdias do Senhor, que ajudeis com vossas orações àquele que haveis chamado com vossos desejos, a fim de que o espírito da graça permaneça sobre mim e não tenhais que arrepender-vos de vossa eleição".(Frei Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo II, p. 101).

Pelos efeitos, São Leão III reconheceu que seus conselhos eram recebidos com alegria. Pregava com frequência, sobretudo nas grandes solenidades, e no dia em que comemorava o aniversário de sua ordenação. Em grande número desses discursos, fala da pregação como sendo um dever ligado ao ministério dos Papas, como também aos dos bispos.

Prudencia, sagacidade, diligencia e Fé ao dirigir a Igreja

Combateu heresias, reforçou a disciplina eclesiástica, escreveu importantes obras, sendo seu pontificado o mais importante da antiguidade Cristã.

Ele teve um cuidado especial ao dirigir a Igreja: levou para Roma as pessoas que mais se distinguiam pelo saber e pela integridade dos costumes, para poder utilizar-se delas no governo da Igreja.

Iniciou seu pontificado estabelecendo a autoridade da Santa Sé a respeito das prerrogativas concedidas a São Pedro: "Jesus Cristo, diz, instituiu de tal forma a economia de sua religião para iluminar pela graça todos os povos e todas as nações, que desejou que a verdade, anunciada anteriormente pelos profetas, aproveitasse a todos os povos, para salvá-los por meio dos apóstolos. Mas, querendo que esse ministério pertencesse a todos os apóstolos, centraliza-o em São Pedro, chefe de todos os apóstolos, e quis que fosse dele, na qualidade de chefe, que se espalhasse para todo o corpo; de sorte que, quem quer que se afaste da solidez de Pedro, deve saber que não tem mais parte nesse ministério divino".

São Leão Magno tinha uma estima especial pelo papado. Em vários Sermões mostra claro que é Pedro quem continua no leme da Igreja, na pessoa dos seus sucessores, aos quais compete um ministério sagrado de vigilância universal para que a fé que o Senhor legou aos Apóstolos não seja corrompida.

Ação interna na Igreja e em dois Impérios... decadentes.

A Igreja e o império tinham igual necessidade de um homem como São Leão, com justiça cognominado o Grande. Átila marchará sobre Roma, Genserico a tomará e Leão se mostrará maior do que todas as calamidades.

"Num tempo em que a Igreja enfrentava os maiores obstáculos para seu progresso, em consequência da rápida desintegração do Império Romano do Ocidente, enquanto o Oriente estava profundamente agitado por controvérsias dogmáticas, esse grande Papa, com uma sagacidade sem precedentes e poderosa mão, guiou o destino da Igreja Romana e Universal".(J.P. Kirsch, Pope Saint Leo, The Catholic Encyclopedia, online edition, www.newadvent.com)

Enquanto São Leão mantinha a disciplina eclesiástica no Ocidente, foi chamado também a manter a fé cristã no Oriente. Esforçava-se principalmente em sustentar a ortodoxia naqueles tempos difíceis para a Igreja e de decadência geral para o mundo.

"De sua primeira carta, escrita a Eutiques em 1º de junho de 448, à sua última carta ao novo Patriarca de Alexandria, Timóteo Salophaciolus, em 18 de agosto de 460, não podemos senão admirar a clara, positiva e sistemática maneira pela qual Leão, fortificado pela primazia da Santa Sé, teve parte nessa difícil confusão".(J.P. Kirsch, Pope Saint Leo, The Catholic Encyclopedia, online edition, www.newadvent.com.)

Ele teve parte ativa e importante na elaboração dogmática sobre o grave problema tratado no Concílio de Calcedônia, convocado pelo imperador do Oriente para a condenação da heresia chamada monofisismo. Nos seus Sermões São Leão defende vivamente a única pessoa de Cristo, mas as suas duas naturezas.

A carta dogmática a Flaviano, lida pelos delegados romanos do Concílio, forneceu o sentido e as fórmulas da definição conciliar, criando assim uma efetiva unidade e solidariedade com a sede de Roma. Quando foi lida em Calcedônia, todos os membros do concílio exclamaram: "Pedro falou por Leão!"

Os invasores fazem circular virus de heresias

Uma nova heresia nasceu em Constantinopla, e, por inépcia do imperador Teodósio, revolucionou ao mesmo tempo a Igreja e o império.

Ainda durante a vida do papa São Celestino, Nestório, bispo de Constantinopla, ignorando os principais mistérios da fé que devia ensinar, afirmava que em Jesus Cristo havia duas pessoas, a de Deus e a do homem; que o Verbo não se uniu hipostaticamente à natureza humana. Essa heresia levava também a sociedade temporal a consequências desastrosas. E São Leão Magno teve que agir com dureza e cautela.

Entre os povos que invadiam o império de todos os lados, havia muito poucos católicos. Quase todos eram arianos ou idólatras.

Os vândalos, arianos pilhavam as igrejas da África com o duplo furor de arianos e de vândalos. Os maniqueus fugitivos de Cartago afluíam à Itália, e ameaçavam infestar Roma. Os priscilianistas inquietavam a Espanha, os pelagianos Veneza e os nestorianos o Oriente. São Leão Magno lutou contra essa situação com as armas que dispunha: a doutrina católica e o desejo de preservar a cristandade.

Sua vida foi sua obra, reflete sua época

Sobre a biografia de São Leão Magno não se sabe quase nada além do que foi sua ação pela Igreja e pela salvação dos homens. Sua vida confunde-se, então, com a vida e ação da Igreja em seu tempo. A coleção de cartas e sermões que ele nos deixou e que puderam dar a ele o título de Doutor da Igreja refletem, como num espelho, a história de seu tempo, a história de sua vida.

Refletem a vida de Leão III que faleceu em Roma no dia 10 de novembro de 461, que foi declarado Doutor da Igreja em 1754 e que sempre foi Grande, sempre foi Magno.

Com São Leão Magno "vemos pela primeira vez o Papado medieval em toda sua concepção grandiosa e sua intransigência necessária, e nele resplandece o duplo elemento que garante a vida divina da Igreja: autoridade e unidade".

Autor Giuliano Cabral do Espírito Santo Beraldo

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