“Povos, aplaudi com as mãos, aclamai a Deus com vozes alegres, porque o Senhor é o Altíssimo, o temível, o grande Rei do universo. Ele submeteu a nós as nações, colocou os povos sob nossos pés, escolheu uma terra para nossa herança, a glória de Jacó, seu amado. Subiu Deus por entre aclamações, o Senhor, ao som das trombetas. Cantai à glória de Deus, cantai; cantai à glória de nosso rei, cantai. Porque Deus é o rei do universo; entoai-lhe, pois, um hino! Deus reina sobre as nações, Deus está em seu trono sagrado”. (Salmo 46, 2-9)
Sabemos que Cristo veio a este mundo, ao se encarnar no seio da Virgem Santíssima, para remir a humanidade decaída e condenada pelo pecado. Veio, sofreu e morreu numa Cruz para fazer a santa vontade do Pai. Obediente até a morte, Ressuscitou ao terceiro dia. Para nossa alegria e para Seu triunfo, subiu aos Céus e está sentado à direita de Deus Pai com todo poder e glória.
"Com a Encarnação de Jesus começa todos os mistérios de nossa Religião, assim como também pela Ascensão é que termina a peregrinação de Cristo neste mundo" (CatRom 6 Artigo IV – a). Uma vez humilhado pela Encarnação, já que se submeteu a ser um como nós, teve na Sua Ascensão e no estar sentado à direita do Pai, a maravilhosa expressão da grandiosidade e poder, para nos mostrar a sua glória suprema e divina majestade.
Cristo sendo Deus, quis fazer-se homem; sendo Senhor, quis suportar a condição de escravo, fazendo-se obediente até à morte, segundo se lê na Carta aos Filipenses (2,1), descendo ainda até ao inferno. Por isso mereceu ser exaltado até ao Céu e sentar-se à direita de Deus. A humildade é, com efeito, o caminho da exaltação, como se lê em São Lucas: Quem se humilha, será exaltado (14,11). Exemplo digno para seguirmos. A caminhada de Cristo é figura da nossa caminhada, caso queiramos viver eternamente com Ele na glória celeste.
Nos diz as Escrituras, que Cristo ficou com seus apóstolos depois de sua Ressurreição, comeu e bebeu familiarmente com eles, instruindo-os sobre o Reino, confirmando neles a fé em Sua palavra; mas a sua glória estava ainda encoberta sob as aparências duma humanidade normal. Sua Ressurreição e Sua Ascensão ao Céu, demonstram sua divindade e confirma aos apóstolos que Aquele que esteve com eles e os chamou a servir ao Seu Reino, era de fato Deus verdadeiro. (Cf. At, 1,3). “O carácter velado da glória do Ressuscitado, durante este tempo, transparece na sua misteriosa palavra a Maria Madalena: « [...] ainda não subi para o Pai. Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes que vou subir para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus» (Jo 20, 17). Isto indica uma diferença entre a manifestação da glória de Cristo Ressuscitado e a de Cristo exaltado à direita do Pai. O acontecimento da Ascensão, ao mesmo tempo histórico e transcendente, marca a transição duma para a outra.”(Cat n.600)
O CatRom I, 7,9 no diz que devemos entender acerca da Ascensão o mesmo que sobre o Mistério da Morte e Ressurreição do Senhor. Pois ainda que devamos a nossa redenção e salvação à Paixão de Cristo, a Sua Ascensão não só nos foi proposta como exemplar na qual aprendemos a dirigir a vista para o alto e a subir ao Céu com o espírito, mas também nos deu em abundância a graça divina para que possamos consegui-Lo. Foi porque subiu ao Céu que pode cumprir sua promessa de enviar o Espírito Santo, para santificar os seus.
A Ascensão, portanto, representa o“reconhecimento do triunfo e exaltação de Cristo por parte do mundo celestial. ” É Justo que a Santa Humanidade de Cristo receba a homenagem, a aclamação e a adoração de todas as hierarquias dos anjos e de todas as legiões dos bem- aventurados da Glória .(Santo Rosário, 2 mistério glorioso).
Ela situa-se no termo da existência terrena de Jesus e nas origens da Igreja. A cena da Ascensão desenvolve-se, por assim dizer, entre o Céu e a terra. “Por que O ocultou numa nuvem o olhar dos Apóstolos? – pergunta São João Crisóstomo – A nuvem era um sinal de que Jesus já tinha entrado nos Céus: não foi, com efeito, um turbilhão ou um carro de fogo como aconteceu com o profeta Elizeu, mas uma nuvem, que simboliza o próprio Céu” (Hom, sobre Act, 2).
A nuvem acompanha as teofanias, as manifestações de Deus, tanto no Antigo como no Novo testamento. (Bíblia de Navarra – Atos - pag.54)
Jesus, Nosso Senhor, depois de consumar a redenção, subiu aos Céus enquanto Homem que era - de corpo e alma -, já que enquanto Deus nunca de lá se afastou, pois sendo Deus enche todos os lugares com Sua presença santa.
E o fez por virtude própria e não por nenhuma força externa, já que seu corpo agora glorioso, obedecia docilmente aos movimentos de sua alma gloriosa, podendo esta O arrebatar com toda facilidade, diferentemente de Habacuc, Elias e o diácono Filipe que o foram pela virtude divina. Portanto, Ele foi ao Céu, como Deus e como Homem, para Sua glória e para o nosso bem. São Tomás nos diz: “Apesar de os Santos irem para o céu, todavia não o fazem como Cristo: porque Cristo o fez por seu próprio poder”.
Cristo subiu aos Céus, primeiro porque como estava seu corpo revestido de gloria imortal desde a Ressurreição, era preciso que deixasse esta terra e fosse à sua morada gloriosa na mansão do Céu. São Tomás em sua Exposição ao Credo nos diz: “porque o céu era devido a Cristo por exigência da sua natureza. É, com efeito, natural que cada coisa retome à sua origem. Cristo tem sua origem em Deus, que está acima de todas as coisas, conforme Ele mesmo disse: Saí do Pai, e vim ao mundo; deixo agora o mundo e volto para o Pai (Jo 16,18). Disse também: ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu" (Jo 3,13),
O Reino de Cristo não era e não é deste mundo. Muitas vezes Ele no-lo disse, portanto, subindo ao Céu, nos provou que este era espiritual e eterno e que era precisamente este Reino que deveríamos buscar enquanto estivéssemos nesta terra de lutas, para um dia estar com Ele na glória. Ele, o primogênito dentre todas as coisas. Lá Cristo tomou posse do trono de glória, merecido prêmio pela sua cruz dolorosa, pelo seu sangue derramado e diligentemente toma conta de tudo o que diz respeito à nossa salvação.
Nesta vida temos uma via a seguir para atingirmos nosso fim que é estar eternamente com Deus. A Sua Ascensão, nos abre e nos ensina esta via. Desconhecíamos o caminho, mas Ele no-lo ensinou, “Subiu abrindo o caminho na frente deles” (Mt 2,13). Subiu ao céu também para nos fazer seguros da posse do reino celeste, conforme se lê em São João: “Vou preparar-vos o lugar” (Jo 14,2).
Para isso precisamos lutar contra o pecado e crescer no amor de Deus, vivendo n'Ele e para Ele. O modelo e a causa eficiente desta nossa vida nova é Cristo. Ao subir aos Céus, nos cumulou de dons e nos encheu de graças, para que pudéssemos pelos seus méritos cumprir este fim. A Ascensão de Cristo nos leva a olhar o Céu e suspirar por ele, já que somos peregrinos nesta terra e é lá nossa morada eterna. Lá com Ele, teremos, se formos fiéis, nossa pátria definitiva.
Cristo, já ao lado do Pai, é nosso grande intercessor e vem sempre em nosso favor, para nos fortalecer e santificar nesta caminhada rumo a Ele mesmo. Nos céus, Cristo exerce permanentemente o seu sacerdócio, « sempre vivo para interceder a favor daqueles que, por seu intermédio, se aproximam de Deus » (Heb 7, 25).
Ele foi em nome de todos nós, este chefe bem dotado que entrou na posse celeste para nos preparar um lugar, como havia prometido. E para o provar, antes de adentrar no Céu, desceu à mansão dos mortos levando com Ele as almas benditas que esperavam com toda esperança o dia de Sua vitória sobre a morte, o mundo e o demônio. Assim Ele o fez, levou-as ao Céu, juntamente com Ele num cortejo esplendoroso. Elas tinham então alcançado seu fim, da qual nós ainda suspiramos enquanto estivermos aqui.
Ao subir, instituiu a Sua Igreja neste mundo – Una, Santa Católica e Apostólica – com o governo e assistência do próprio Espírito que enviaria, em Pentecostes. Deixou-nos um pastor visível, nosso chefe supremo escolhido entre os Apóstolos, um homem – Pedro – o Príncipe dos Apóstolos. Nela derrama abundantemente suas graças para santificar seu povo de predileção, constituindo assim o exército de santos para a glória de Deus Pai.
Devemos crer nesta verdade sem hesitação, mesmo sem ter visto, aumentando em nós os méritos de nossa fé, pois bem aventurados são aqueles que creem sem ver, “fixando, - como nos diz o Papa São Leão Magno -, o desejo onde a vista não pode chegar. Na verdade, continua ele -, tudo que na vida de nosso Redentor era visível passou para os ritos sacramentais, e para que nossa fé fosse mais firme e autêntica, à visão sucedeu a doutrina, em cuja autoridade se devem apoiar os corações dos que crêem, iluminados pela luz celeste .”(São Leão Magno – Alimento Sólido - Felipe Aquino – pag. 194).
Sua Ascensão, assim como Sua Ressurreição, foi para o santos apóstolos e é também para nós, o grande sinal de Sua divindade e onipotência. Hoje toda nossa contemplação na esperança reside no fato de que Cristo é verdadeiro Homem e verdadeiro Deus e que assentado à direita do Pai está vivo e com todo poder e força, cuidando de nós, intercedendo por nós, e que portanto, não estamos sós, mas temos Deus conosco.
Ocultou-se na Sua Humanidade, mas se fará presente até o fim dos tempos. "Nossa fé, - nos diz ainda São Leão Magno - começou a adquirir um maior e progressivo conhecimento da igualdade do Filho com o Pai, e a não mais necessidade da presença palpável da substância corpórea de Cristo, pela qual Ele é inferior ao Pai. Pois, subsistindo a natureza do corpo glorificado, a fé dos que crêem é atraída para lá, onde o Filho Unigênito, igual ao Pai, poderá ser tocado não mais pela mão carnal, mas pela contemplação do espírito”.
Cristo enquanto Homem subiu aos Céus e está sentado à direita do Pai, recebeu portanto, lugar de dignidade e de honra, por conta de Sua obediência santa. Esta é uma figura de linguagem que exprime “a posse segura e inabalável do régio poder e da glória infinita que Ele recebeu do Pai. Glória que a nenhuma criatura foi dada, nem aos anjos, pois só a Cristo foi dito: Senta-te à Minha direita” (Hb 1) e sentar-se à direita do Pai significa a inauguração do Reino messiânico, cumprimento da visão do profeta Daniel a respeito do Filho do Homem: « Foi-Lhe entregue o domínio, a majestade e a realeza, e todos os povos, nações e línguas O servirão. O seu domínio é um domínio eterno, que não passará jamais, e a sua realeza não será destruída » (Dn 7, 14).
Esta subida é um grande estímulo para que levantemos nosso coração, para amar e buscar as coisas do alto, nos conformando com Cristo, nosso Senhor e Rei, cabeça de um corpo da qual nós somos os membros. Nos diz São Paulo: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus; saboreai as coisas do alto e não as da terra” (Col 3,1).
Com Cristo ascendemos, mística, mas realmente, ao mais alto dos Céus e conseguimos por Cristo uma graça mais inefável, do que a que tínhamos perdido pela inveja do diabo. Possamos sempre ouvir Sua voz que disse ao Pai: “Pai, quero que onde Eu estou, estejam comigo também aqueles que Vós me destes”( Jo 17,24).
Não é fato que nosso coração, tal os discípulos de Emaús, se abrasa com toda esta revelação? Que estímulo na luta para buscar o Reino de Deus e Sua justiça combatendo o bom combate até a vitória final em Cristo Jesus!! Ele se ausentou de nós, para espiritualizar nosso amor e pode pelas suas graças nos elevar à condição de filhos, com uma participação real de Sua vida maravilhosa.
Só podemos dizer a Deus como nossa mãe Maria Santíssima: Senhor eis aqui teus filhos, faça-se em nós segundo a tua palavra e dai-nos a tua graça para perseverarmos até o fim, sempre com os olhos fixos no Céu, onde está o teu trono santo.
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Iesu Christi - Santa Igreja - Solenidades
A mais fulgurante das luzes brilha nas trevas e oferece à humanidade a verdadeira paz, sobretudo em nossa era crivada de guerras, catástrofes e ameaças. Junto a Maria, a José e aos pastores, no Presépio, adoremos o Menino-Deus, o Príncipe da Paz.
I - Cristo, o centro da História
Vivemos no Século XXI e ninguém levanta a menor dúvida a este propósito, pois assim foi estabelecido, por consenso universal, o critério para elaborar o nosso calendário. Só esse fato seria, de si, suficiente para comprovar que há dois milênios e seis anos, numa gruta em Belém, nasceu o Menino-Deus com a missão de salvar o mundo. Essa é uma das provas da grande importância que todos os povos, crentes ou não-crentes, atribuíram ao acontecimento que acabou por dividir a História em dois grandes períodos: antes e depois de Cristo. Não tardaram muitos séculos para que urbi et orbe, três vezes ao dia, os sinos das igrejas ecoassem a fim de recordar e alçar seus louvores aos Céus pela Encarnação do Verbo; o Ângelus passou a ser uma devoção universal. A emoção e o júbilo pervadiram a terra e, ao longo dos tempos, na celebração do Natal, sempre ressoaram os cantos litúrgicos e as canções destinadas a manifestar a mesma alegria de há mais de vinte séculos: "Hodie Christus natus est" (1).
"Uma luz resplandece nas trevas" (Jo 1, 5): "Christus natus est nobis", foi para nós que Ele nasceu, para a humanidade de todas as épocas, até o Juízo Final. O glorioso nascimento do Menino Jesus constitui uma inesgotável fonte de salvação. E, invariavelmente - sobretudo neste ano tão atravessado por ameaças de guerras, convulsões e terrores - o convite que nesta festividade é feito aos homens vem carregado de promessas.
Junto ao Divino Infante pode-se encontrar a verdadeira paz, como ocorreu com os pastores e os Reis Magos. Movidos por um sopro do Espírito Santo, abandonaram seus afazeres e puseramse a caminho em busca da Paz Absoluta, para adorá-La. Esse mesmo convite nos é dirigido a nós na noite de hoje: "Venite adoremus", pois "a graça de Deus, nosso Salvador, apareceu a todos os homens. (...) Manifestou-se a bondade de Deus nosso Salvador e o seu amor pelos homens" (Tt 2, 11; 3, 4).
II - Viagem de José e Maria a Belém
O recenseamento
Não há uma só palavra ou um só gesto relacionado com a vida de Jesus que não contenha vários e altíssimos significados. Por isso multiplicam- se ao longo dos séculos comentários e interpretações sobre as narrativas evangélicas. Neste primeiro versículo encontramos um exemplo interessante sobre esse particular. São Tomás de Aquino, por exemplo, assim se manifesta:
Cristo veio para nos reconduzir do estado de escravidão ao estado de liberdade. Por isso diz Beda que, assim como assumiu nossa condição mortal para nos conduzir à vida, assim ‘dignou- Se encarnar num tempo em que, apenas nascido, seria registrado no censo de César, e, por nossa libertação, se submeteu Ele mesmo à escravidão'" (2). Além dos aspectos teológicos relacionados com o recenseamento, podemos considerar razões concretas, de ordem geográfica e sociológica, que tornam mais clara a providencialidade da escolha da época para nascer o Messias.
Naquele tempo, o local de nascimento do fundador da estirpe era de fundamental importância para se determinar as origens de uma família. Mesmo após ter-se desdobrado em inúmeros ramos que iam estabelecer-se em outros lugares, às vezes longínquos, essas novas colméias humanas guardavam um estreito relacionamento com suas nascentes geográficas. Esse costume era sobremaneira observado pelo povo judeu, e dele se serviram os romanos para fazerem cumprir o edito de César Augusto, a fim de levar a cabo um exato recenseamento do povo. Daí o fato de José ver-se na contingência de apresentar-se diante das autoridades, na "cidade de Davi, que se chamava Belém". Por isso, a Sagrada Família deveria empreender uma viagem de três ou quatro dias, de Nazaré a Belém (cerca de 140 km), tempo gasto pelas caravanas da época. Aliás, Belém ficava no carrefour das rotas de caravanas com destino ao Egito, sendo um lugar de repouso dos viajantes.
Por que Maria fez a viagem com José
O fato de São Lucas mencionar o estado de gravidez no qual se encontrava Maria Santíssima propicia comentários e hipóteses. Como só José tinha a obrigação de apresentar-se em Belém, por que também Maria teria empreendido essa viagem na companhia dele?
Segundo alguns autores, talvez ambos tivessem planejado sua definitiva mudança para a cidade-berço da estirpe do Rei Profeta. Tanto mais que, na Anunciação feita por São Gabriel, constava que Deus daria ao Menino o trono de seu pai Davi. Além disso - argumentam esses autores - havia vários séculos, o profeta Miquéias fizera referência à cidade de Belém como o local de procedência d'Aquele que governaria o povo judeu (cf. Mq 5,1).
Por outro lado, é também possível que José não quisesse deixar Maria a sós naquelas circunstâncias, sobretudo se considerarmos a grande santidade desse varão que seria o pai legal e tutor do Filho de Deus. José, certamente, queria adorá-Lo o quanto antes e logo no primeiro instante.
Quiçá todas as hipóteses se conjuguem e tenham cabimento. Seja como for, o deslocamento deve ter sido muito fatigante para a Santíssima Virgem, já tão próxima dos últimos momentos da gestação. Os caminhos, além de tortuosos e mal-acabados, estavam ingurgitados pelo fluxo do trânsito dos convocados pelo recenseamento. Asnos e camelos circulavam num e noutro sentido em número acima do costumeiro. Além disso, Belém se situa 10 km ao sul de Jerusalém, a mais de 700 metros de altitude sobre o Mediterrâneo e a quase 1200 metros acima do nível do Mar Morto; portanto, uma e outra cidade se encontram em altitudes bem semelhantes. Era a última região habitável rumo ao Mar Morto. Assim, íngremes foram os derradeiros trechos de estrada percorridos para chegar em Jerusalém e pernoitarem em Belém.
Talvez se julgue que, pela imensa consolação de se tornar mãe daí a pouco, não sentisse a Santíssima Virgem as agruras de tão penoso percurso. Mas até isso Lhe foi exigido, para tornar mais meritória sua participação na obra redentora de seu Divino Filho. E a esse incômodo, outro mais se acrescentaria: os "hotéis" daqueles tempos. As condições de hospedagem nem de longe se assemelhavam às de hoje, sob os mais variados aspectos. Os viajantes ocupavam divisões contíguas, debaixo de caramanchões - sem teto, portanto - ou, os que possuíam mais recursos, cubículos cobertos. Estes e aqueles se localizavam ao longo de um muro alto que cercava um pátio amplo, no qual os hóspedes deixavam os respectivos animais. Uma única porta dava acesso ao interior da hospedagem. Nas noites de superlotação, não era raro encontrar pessoas acampadas nesse pátio. Tal convívio entre homens, em meio aos animais, era alimentado por comes e bebes, alegrado por cantorias, falatórios e até mesmo discussões. Não era alheio a esse ambiente um indescritível prosaísmo, comum naqueles tempos.
Em nada era estranha aos judeus a agitação que se criou por ocasião do recenseamento, pois o ambiente era o mesmo ao longo das celebrações da Páscoa. Ainda não havia o recato que o Preciosíssimo Sangue do Redentor introduziu depois na Civilização Cristã. Tudo se fazia sem reservas: ali se podia nascer ou morrer, adoecer ou curar-se, dormir ou agitar-se, etc., à vista de todos. Esse é o verdadeiro sentido da afirmação de São Lucas: "porque não havia lugar para eles na hospedaria". Não tanto porque esta estivesse lotada, mas por não Lhes ser adequada.
Belém, a cidade escolhida
E por que Belém?
O nome da cidade é de origem hebraica: "Bet-lehem", ou seja, "casa do pão", porque essa localidade era muito fértil. Quem, misticamente, cantou as glórias de Belém foi Santa Paula, no ano de 383: "Saúdo-te, ó Belém, casa do pão, onde o pão descido do Céu viu a luz da terra! Saúdo-te, ó Efratá, campo riquíssimo e fértil, que entre os teus frutos trouxeste o próprio Deus!" (3). São Tomás de Aquino nos ensina algumas das razões pelas quais Jesus escolheu Belém para nascer e Jerusalém para morrer:
"Davi nasceu em Belém, mas escolheu Jerusalém para estabelecer nela a sede de seu reino e ali edificar o templo de Deus. Assim, Jerusalém viria a ser ao mesmo tempo a cidade real e sacerdotal. Mas o sacerdócio de Cristo e o seu reino se realizariam principalmente em sua Paixão. Por isso era conveniente que, para nascer, escolhesse Belém, e para a Paixão, Jerusalém. (...)
"Como diz São Gregório, Belém quer dizer ‘casa do pão'. E o próprio Cristo afirma: ‘Eu sou o pão vivo, que desceu do Céu'. (...) Além disso, contrariava a vanglória dos homens que se orgulham de ter nascido em cidades famosas, nas quais querem principalmente ser honrados. Cristo, pelo contrário, quis nascer numa cidade obscura e padecer opróbrios numa cidade famosa" (4).
Historicamente, Belém tem um passado rico em densidade e simbologia. Ali foi enterrada Raquel, esposa de Jacó (cf. Gn 35, 16-19), e até hoje se pode visitar seu túmulo. Na divisão do território de Israel, efetuada por Josué, Belém coube à tribo de Judá, na qual nasceu Davi. Porém, depois do nascimento de Jesus, ela se eclipsa. Os Evangelhos não mais a mencionam, e, assim, ela fica com os resplendores dos primeiros olhares do Salvador, logo ao vir a este mundo. Só no século II, São Justino e Orígenes, além de alguns outros escritores, fazem reviver as glórias dessa cidade.
III - Nasce o Salvador
História da Gruta
Por fim, já bem instalados, Maria sugeriu a José rezarem juntos por todos aqueles que haviam se negado a recebê-los, e lhe comunicou a hora do nascimento, pedindo-lhe que preparasse bem a manjedoura para poder honrar e adorar o Menino, tão logo Ele entrasse neste mundo.
O Céu se uniu à terra
Depois de alguns instantes, passados fora, José retornou à Gruta, encontrando- a como que em chamas, de tanta luz. Imediatamente prostrou- se com o rosto em terra. Essa luz que envolvia a Santíssima Virgem foi crescendo de intensidade e, à meia-noite, após Ela entrar em êxtase e levitação, e estando a própria natureza dos arredores como que em grande júbilo, nasceu o Salvador. Ao ter-Se movido o Menino, fazendo ouvir seus primeiros vagidos, Maria "envolveu-O em panos e recostou- O no Presépio". Os céus desceram à terra para adorá-Lo, enquanto a Virgem, resguardando-O em seu amplo manto, O amamentava. Passada uma hora, Maria chamou José, o qual ainda estava prosternado em oração. Júbilo, humildade e fervor, são as qualidades com que a vidente Ana Catarina descreve o estado de alma de José, ao receber o Menino nos braços, banhando-se em lágrimas de alegria. O recém-nascido era "brilhante como um relâmpago", segundo sua expressão.
A esta altura do presente artigo, vem-me o ardente desejo - talvez por neste momento eu me encontrar numa capela, bem próximo de Jesus- Hóstia, exposto à adoração - de dirigir às almas que lêem este relato o que São Paulo implora ao Pai, para os Efésios: "Que Cristo [Menino] habite pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados na caridade, a fim de que possais, com todos os cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo o conhecimento, e sejais cheios de toda a plenitude de Deus" (Ef 3, 17-19).
O Natal na Liturgia
Assistimos liturgicamente, nesta noite, ao nascimento de Cristo, que se deu no tempo, pois, por sua natureza divina, já fora gerado desde toda a eternidade, como afirma São Tomás de Aquino: "Cristo tem duas naturezas: a divina e a humana. A primeira, recebeu- a do Pai desde toda a eternidade; e a outra, recebeu-a da Mãe, no tempo. É, pois, necessário atribuir a Cristo dois nascimentos: o do Pai, desde a eternidade, e o da Mãe, no tempo" (5).
"E o Verbo Se fez carne ..." (Jo 1, 14). A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade está entre nós. Esse acontecimento único e insuperável refulge em toda a História e, apesar de terse dado há mais de dois mil anos, é atualíssimo. Deus quis fazer-Se sensível e visível e, ainda hoje, como se dará até o fim dos tempos, podemos ter contato com esses esplendores da Encarnação através dos Sacramentos. Diariamente, sobre os nossos altares, o Verbo Se faz carne. Por essa razão, a Missa do Galo, para nós, tem um significado todo especial. Que o Espírito Santo nos abrase o coração para aproveitarmos todas as graças e dons trazidos pelo Menino-Deus, em sua vinda à luz, nesta noite.
IV - Adoração dos pastores
Também Davi havia sido pastor de ovelhas, e naquela gruta estavam três de seus descendentes, sendo um deles o Filho do Altíssimo. A corte celeste já rendera culto e homenagem ao Menino. Nascido com nossa natureza, digno e justo era que também de nossa sociedade recebesse Ele adoração.
Uma categoria social desprezada
Os pastores constituíam uma comunidade desprezada pelos fariseus. No caso concreto de Belém, trabalhavam eles nos confins da região, onde o cultivo das plantações já não interessava e as terras estavam abandonadas e incultas. Ali permaneciam os rebanhos mais numerosos, fosse inverno ou verão, vigiados por alguns homens. Os habitantes do povoado guardavam seus animais nos estábulos dos arredores. A péssima reputação dos pastores entre os fariseus provinha de várias razões. Percebese, de imediato, que as funções por eles exercidas não se coadunavam muito com as inúmeras abluções, lavar de mãos, purificação de vasilhas, seleção de alimentos, etc., às quais os fariseus davam tanta importância. Mas, sobretudo, eram eles homens de bom senso e mais dados à contemplação. O contato permanente com a natureza saída das mãos de Deus, na calma e tranqüilidade do isolamento do campo, lhes enriquecia a alma de pensamentos elevados, conduzindoos à elaboração de critérios sólidos, difíceis de serem destruídos pela ilogicidade caprichosa dos fariseus.
Eis, em poucas palavras, os motivos pelos quais os pastores eram excluídos dos pleitos judiciais dos fariseus, não eram aceitos como testemunhas, e nem sequer podiam entrar em seus tribunais.
Separando dos incrédulos os que têm fé
Assim, já ao nascer, o Menino-Deus iniciou sua missão de pedra de escândalo, deixando de lado os que não crêem. Herodes ouviria dos lábios dos Reis Magos o anúncio do grande milagre; aqueles que recusaram pousada aos pais do Menino, e os próprios fariseus, com sua pérfida pertinácia, também rejeitariam os milagres de Jesus. Todos esses não creram. Os Anjos buscaram os pastores por terem estes uma robusta virtude da fé, toda feita de obediência. Não era fácil crer num Messias nascido em plena pobreza, num estábulo, entre um boi e um burro. Os pastores, entretanto, foram escolhidos por Deus, não por sua simplicidade de vida e de costumes, nem sequer pela sua pouca capacidade financeira - pois muitos outros havia em Israel mais pobres e simples do que eles -, mas porque estavam predispostos a crer.
O temor da grandeza de Deus
Sem embargo, os pastores "tiveram grande temor". Herodes também temeria, da mesma forma que, mais tarde, os escribas, os fariseus e o Sinédrio. São muito diferentes todos esses temores. A aparição de um Anjo, para os judeus, vinha sempre acompanhada da idéia de perecimento imediato. Mas neste caso, além do mais, dava-se a manifestação da glória de Deus, e o natural efeito de sua grandeza é o temor, seguido de admiração ou de ódio, nunca de indiferença. Por isso uns irão correndo à Gruta para adorá-Lo e outros quererão matá-Lo.
O anúncio do Anjo se inicia por uma determinação: "Não temais!" Estas palavras evidentemente diziam respeito à sua própria aparição, mas bem poderiam constituir um letreiro a ser colocado sobre a manjedoura onde repousa o Menino-Deus. Sim, porque, apesar da fragilidade de um recém-nascido, ali se encontram a Grandeza infinita de Deus, a Verdade, a Justiça e a Bondade. Por nossa natureza defectiva e por sermos pecadores, temos medo da Justiça e, assim como a luz muito brilhante pode ferir os olhos enfermos, treme nossa maldade diante da Grandeza de Deus.
Daí ter o Anjo recomendado com tom imperativo que não temessem, e logo a seguir lhes falado de uma "grande alegria". De fato, impossível alegria maior. Aquele Messias que tanto fora objeto de suas longas conversas, como também de suas inúmeras contemplações, havia nascido. Apesar de sua formação tosca, estavam os pastores isentos do dogmatismo obliterado dos fariseus; com a fé inocente de camponeses que eram, cheios da graça do Espírito Santo, imediatamente acreditaram na angélica mensagem.
Encontrarem o local não constituía problema para eles, pois todos os estábulos já lhes eram muito conhecidos. Nas noites de muito frio, ou chuva, buscavam refúgio nessa ou naquela gruta. O Anjo lhes dá o sinal indicativo: "Um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura".
V - O cântico dos anjos
Fixemos nossa atenção nestas palavras: "multidão da milícia celeste (...) glória a Deus".
Glória a Deus nas alturas...
Sim, a maior glória que a humanidade e os próprios Céus poderiam dar a Deus realizou-se no grandioso nascimento do Senhor. Toda a criação - nela incluída a Santíssima Virgem - reunida num só coro, jamais prestaria a Deus o louvor que se elevou do Menino Jesus em seu nascimento. Antes de este ter-se dado, os cânticos de todos os seres eram débeis e sem eco. Com a vinda de Cristo, causa meritória e eficiente de nossa divinização, toda a obra da criação atingiu um patamar inimaginável. E tornando-Se Jesus centro e modelo, não apenas o cântico passou a ser outro, como Ele também começou a cooperar na infinita glorificação que o Pai deseja Lhe seja tributada. A humanidade adquiriu como cabeça e sacerdote o próprio Cristo, que só por seu nome dá toda glória a Deus.
Aquele Menino na manjedoura, desde seu primeiro momento e ao longo de sua vida, em suas palavras, obras e sofrimentos, nada quis mais do que ser instrumento para servir, louvar e glorificar a Deus. Tanto mais nobre será o homem, quanto mais se considerar criatura de Deus e deste princípio tirar todas as conseqüências, conferindo à sua vida uma inteira ordenação. Daí nascerão as mais belas virtudes. Ora, vindo esta noite ao mundo, o Menino, desde seu abrir de olhos, sempre foi submisso a Deus, na completa justiça, eqüidade e perfeição.
Até mesmo sem levar em conta o caráter expiatório de sua Encarnação, já é insuperável a glória que se elevou a Deus, partindo daquela gruta em Belém.
Paz na terra...
Em harmonia com essa "Glória a Deus nas alturas", o Menino veio trazer a paz aos homens. Sim, Ele nos reconciliou com Deus, ensinou-nos a bem conhecer e amar o Pai, assim como nossos irmãos, e, morrendo por todos e cada um, convidou-nos à santidade. O nosso fim último tornou-se claramente explícito, como também ficou indicado qual deve ser o nosso governo sobre nós mesmos e sobre as criaturas.
Eis o convite essencial para o mundo de hoje tomado pelas guerras, catástrofes e ameaças: ajoelhe-se e, juntamente com Maria, José e os pastores, ouça a saudação de São Paulo: "O Senhor da paz, Ele próprio, vos dê a paz, sempre e em todos os lugares" (2 Ts 3, 16).²
Revista Arautos do Evangelho,
Dez/2006, n. 60, p. 10 à 17
Iesu Christi - Solenidades
Evangelho da Solenidade de Cristo Rei
O povo estava a observar. Os príncipes dos sacerdotes com o povo O escarneciam dizendo: "Salvou os outros, salve-Se a Si mesmo, se é o Cristo, o escolhido de Deus!" Também o insultavam os soldados que, aproximando-se dele e oferecendo-lhe vinagre, diziam: "Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo!" Estava também por cima de sua cabeça uma inscrição: "Este é o Rei dos judeus". Um daqueles ladrões que estavam suspensos da cruz, blasfemava contra ele, dizendo: "Se és o Cristo, salva-Te a Ti mesmo e a nós" O outro, porém, tomando a palavra, repreendia-o dizendo: "Nem tu temes a Deus, estando no mesmo suplício? 4Quanto a nós se fez justiça, porque recebemos o castigo que mereciam nossas ações, mas Este não fez nenhum mal." E dizia a Jesus: "Senhor, lembra-Te de mim, quando entrares no teu Reino!" Jesus disse-lhe: "Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso." (Lc 23, 35-43).
I - REI NO TEMPO E NA ETERNIDADE
Ao ouvirmos este Evangelho da Paixão, de imediato surge em nosso interior uma certa perplexidade: por que a Liturgia, para celebrar uma festa tão grandiosa como a de Cristo Rei, terá escolhido um texto todo ele feito de humilhação, blasfêmia e dor?
Tanto mais que, em extremo contraste com esse trecho de São Lucas, a segunda leitura de hoje nos apresenta Jesus Cristo como sendo "a imagem do Deus invisível, o Primogênito de toda a criação (...) porque foi do agrado do Pai que residisse n'Ele toda a plenitude" (Col 1, 15 e 19). Como conciliar esses dois textos, à primeira vista, tão contraditórios?
Para melhor compreendermos esse paradoxo, devemos distinguir entre o Reinado de Cristo nesta terra e o exercido por Ele na eternidade. No Céu, seu reino é de glória e soberania. Aqui, no tempo, ele é misterioso, humilde e pouco aparente, pelo fato de Jesus não querer fazer uso ostensivo do poder absoluto que tem sobre todas as coisas: "Foi-me dado todo o poder no Céu e na terra" (Mt 28, 18).
Apesar de as exterioridades nos causarem uma impressão enganosa, Ele é o Senhor Supremo dos mares e dos desertos, das plantas, dos animais, dos homens, dos anjos, de todos os seres criados e até dos criáveis. Porém, diante de Pilatos, assevera: "O meu Reino não é deste mundo" (Jo 18, 36), porque não quer manifestar seu império em todas as suas proporções, a não ser por ocasião do Juízo Final.
Assim, enquanto o Evangelho nos fala de seu Reinado terreno, a Epístola proclama o triunfo de sua glória eterna. No tempo, vemo-Lo exangue, pregado na Cruz entre dois ladrões, sendo escarnecido pelos príncipes dos sacerdotes e pelo povo, insultado pelos soldados e objeto das blasfêmias do mau ladrão. A Liturgia exige de nós um esforço de fé para, indo além do fracasso e da humilhação, crermos na grandiosidade do Reino de Jesus.
Por outro lado, errôneo seria imaginar que Ele não deve reinar aqui na terra. Para comp reender bem o quanto Cristo é Rei, é preciso diferenciar seu modo de governar daquele empregado pelo mundo.
O governo humano, quando ateu, encontra sua força nas armas, no dinheiro e nos homens. Tem por finalidade as grandes conquistas territoriais, perdurar longamente e alcançar a felicidade terrena. Porém, o tempo sempre demonstra o quanto esses objetivos são ilusórios e até mentirosos. As armas em certo momento caem ao solo, ou se voltam contra o próprio governante; o dinheiro é por vezes um bom vassalo mas sempre um mau senhor; os homens, quando não assistidos pela graça, neles não se pode confiar.
II - A REALEZA ABSOLUTA DE CRISTO
A Realeza de Cristo é bem outra. Ele de fato é Rei do Universo e, de maneira muito especial, de nossos corações. Ele possui uma autoridade absoluta sobre todas as criaturas e já muito antes de sua Encarnação, quando se encontrava no seio do Padre Eterno, ouviu estas palavras:
"Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Pede- me; dar-te-ei por herança todas as nações; tu possuirás os confins do mundo, tu governarás com cetro de ferro" (Sl 2, 7-9).
Rei por direito de herança
Ele é o unigênito Filho de Deus e por Este foi constituído como herdeiro universal, recebendo o poder sobre toda a criação, no mesmo dia em que foi engendrado (1).
Rei por ser Homem-Deus
Por outro lado, Jesus Cristo é Deus e, assim sendo, tudo foi feito por ele, o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Senhor absoluto de toda existência, do Céu, da terra, do sol, das estrelas, das tempestades, das bonanças. Seu poder é capaz de acalmar as mais terríveis ferocidades dos animais bravios e as procelas dos mares encapelados. Os acontecimentos, as forças físicas e morais, a guerra e a paz, a pobreza e a fartura, a humilhação e a glória, o revés e o sucesso, as pestes, os flagelos, a doença e a saúde, a morte e a vida, estão todos ao dispor de um simples ato de sua vontade. Aí está um Governo incomparável, superior a qualquer imaginação, e do qual ninguém ou nada poderá se subtrair.
O título de Rei Lhe cabe mais apropriadamente do que às outras duas Pessoas da Trindade Santíssima, por ser o Homem-Deus, conforme comenta Santo Agostinho: "Apesar de que o Filho é Deus e o Pai é Deus e não são mais que um só Deus, e se o perguntássemos ao Espírito Santo, Ele nos responderia que também o é...; entretanto, as Sagradas Escrituras costumam chamar de rei, ao Filho" (2).
De fato, o título de Rei, quando aplicado ao Pai, é usado de forma alegórica para indicar seu domínio supremo. E se quisermos atribuí-lo ao Espírito Santo, faltará exatidão jurídica, por tratar-se Ele de Deus não-encarnado, pois, para ser Rei dos homens é indispensável ser Homem. Deus não encarnado é Senhor, Deus feito homem é o Rei.
Rei por direito de conquista
Jesus Cristo é nosso Rei também por direito de conquista, por nos ter resgatado da escravidão a Satanás.
Ao adquirirmos um objeto às custas de nosso dinheiro, ele nos pertence por direito. Mais ainda se o obtivermos através de duras penas, pelos esforços de nosso trabalho, e muito mais, se for conseguido pelo alto preço de nosso sangue. E não fomos nós comprados pelo trabalho, sofrimentos e pela própria morte de Nosso Senhor Jesus Cristo? É São Paulo quem nos assevera: "Porque fostes comprados por um grande preço!" (I Cor 6, 20).
Rei por aclamação
Cristo é nosso Rei por aclamação. Antes mesmo das purificadoras águas do Batismo serem derramadas sobre no ssa cabeça, nós O elegemos para ser o regente de nossos corações e de nossas almas, através dos lábios de nossos padrinhos. Por ocasião do Crisma e a cada Páscoa, de viva voz nós renovamos essa eleição, sempre de um modo solene.
Rei do interior dos homens e de todas as exterioridades
Não houve, nem jamais haverá um só monarca dotado da capacidade de governar o interior dos homens, além de bem conduzi-los na harmonia de suas relações sociais, seus empreendimentos, etc. O único Rei pleníssimo de todos os poderes é Cristo Jesus.
Exteriormente, pelo seu insuperável e arrebatador exemplo - além de suas máximas, revelações e conselhos - Ele governa os povos de todos os tempos, tendo marcado profundamente a História com sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição. Por meio do Evangelho e sobretudo ao erigir a Santa Igreja, Mestra infalível da verdade teológica e moral, Jesus perpetua Cristo Rei do Universo.JPGaté o fim dos tempos o imorredouro tesouro doutrinário da fé. Através dessa magna instituição Ele orienta, ampara e santifica todos os que nela ingressam, e vai em busca das ovelhas desgarradas.
Aqui precisamente se encontra o principal de seu governo neste mundo: o Reino Sobrenatural que é realizado, na sua essência, através da graça e da santidade.
Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto a "videira verdadeira" é a causa da vitalidade dos ramos. A seiva que por eles circula, alimentando flores e frutos, tem sua origem n'Aquele Unigênito do Pai (Jo 15, 1-8). Ele é a Luz do Mundo (Jo 1, 9; 3, 19; 8, 12; 9, 5) para auxiliar e dar vida aos que dela quiserem se servir para evitar as trevas eternas. Jesus - segundo a leitura de hoje - é "a cabeça do corpo que é a Igreja, é o Princípio, o Primogênito entre os mortos, de maneira que tem a primazia em todas as coisas, porque foi do agrado do Pai que residisse n'Ele toda a plenitude e que por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, pacificando pelo Sangue da sua Cruz, tanto as coisas da terra, como as do Céu" (Col 1, 18-20).
O Reinado de Cristo, em nosso interior, se estabelece pela participação na vida de Jesus Cristo. Só no Homem- Deus se encontra a plenitude da graça, enquanto essência, virtude, excelência e extensão de todos os seus efeitos. Os outros membros do Corpo Místico participam das graças que têm sua origem em Jesus, a cabeça que vivifica todo o organismo. Quem de maneira privilegiadíssima tem parte em grau de plenitude nessa mesma graça, é a Santíssima Virgem.
Dada a desordem estabelecida em nós após o pecado original, acrescida pelas nossas faltas atuais, nossa natureza necessita do auxílio sobrenatural para atingir a perfeição. Sem o sopro da graça, é impossível aceitar a Lei, obedecer aos preceitos morais, não elaborar razões falsas para justificar nossas más inclinações e conhecer, amar e praticar a boa doutrina de forma estável e progressiva. Ela refreia nossas paixões e as equilibra nos gonzos da santidade, orienta nosso espírito, modera nossa língua, tempera nosso apetite, purifica nosso olhar, gestos e costumes. É através da graça que nossa alma se transforma num verdadeiro trono e, ao mesmo tempo, cetro de Nosso Senhor Jesus Cristo. E é nessa paz e harmonia que se encontra nossa autêntica felicidade, e esse é o Reino de Cristo em nosso interior.
E qual o principal adversário contra esse Reino de Cristo sobre as almas? O pecado! Por isso mesmo, se alguém tem a desgraça de o cometer, nada fará de melhor do que procurar um confessionário e com arrependimento ali declará-lo a fim de ver-se livre da inimizade de Deus. É impossível gozar de alegria com a consciência atravessada pelo aguilhão de uma culpa. Nessa consciência não reinará Cristo; e se ela não se reconciliar com Deus, aqui na terra, tampouco reinará com Ele na glória eterna.
III - A IGREJA, MANIFESTAÇÃO SUPREMA DO REINADO DE CRISTO
Porém, ao analisarmos a Igreja militante, na qual hoje vivemos, com muita dor encontramos imperfeições - ou pior ainda, faltas veniais - nos mais justos, conferindo opacidade a essa glória mencionada por São Paulo. Entre as ardentes chamas do Purgatório, está a Igreja padecente, purificando-se de suas manchas. Até mesmo a triunfante possui suas lacunas, pois, exceção feita da Santíssima Virgem, as almas dos bem-aventurados foram para o Céu deixando seus corpos em estado de corrupção nesta terra, onde aguardam o grande dia da Ressurreição.
Portanto, a "Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e imaculada" , manifestação suprema da Realeza de Cristo, ainda não atingiu sua plenitude.
E quando definitivamente triunfará Cristo Rei? Só mesmo depois de derrotado seu último inimigo, ou seja, a morte! Pela desobediência de Adão, introduziram-se no mundo o pecado e a morte. Pelo seu Preciosíssimo Sangue Redentor, Cristo infunde nas almas sua graça divina e aí já se dá o triunfo sobre o pecado. Mas a morte será rendida com a Ressurreição no fim do mundo, conforme o próprio São Paulo nos ensina:
"Porque é necessário que Ele reine, ‘até que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés'. Ora, o último inimigo a ser destruído será a morte; porque Deus ‘todas as coisas sujeitou debaixo de seus pés' " (I Cor 15, 25- 26).
Cristo Rei, por força da Ressurreição que por Ele será operada, arrancará das garras da morte a humanidade inteira, como também iluminará os que purgam nas regiões sombrias. Ao retomarem seus respectivos corpos, as almas bem-aventuradas farão com que eles possuam sua glória; e assim, serão também os eleitos outros reis cheios de amor e gratidão ao Grande Rei. Apresentarse- á o Filho do Homem em pompa e majestade ao Pai, acompanhado de um numeroso séqüito de reis e rainhas, tendo escrito em seu manto: "Rei dos reis e Senhor dos senhores" (Apoc 19, 16)
IV - SE CRISTO É REI, MARIA É RAINHA
Se Cristo é Rei por ser Homem-Deus e recebeu o poder sobre toda a Criação no momento em que foi engendrado, daí se deduz ter sido realizada no puríssimo claustro maternal de Maria Virgem a excelsa cerimônia da unção régia que elevou Cristo ao trono de Rei natural de toda a humanidade. O Verbo assumiu de Maria Santíssima nossa humanidade, e assim adquiriu a condição jurídica necessária para ser chamado Rei, com toda a propriedade. Foi também nesse mesmo ato que Nossa Senhora passou a ser Rainha. Uma só solenidade nos trouxe um Rei e uma Rainha.
V - CONCLUSÃO
Eles eram homens sem fé e desprovidos do amor a Deus, julgando os acontecimentos em função de seu egoísmo e por isso levados a se esquecerem de sua contingência. Cegos de Deus, já há muito afastados de sua inocência primeva, perderam a capacidade de discernir a verdadeira realidade existente por trás e por cima das aparências de derrota que revestiam o Rei eterno transpassado de dor sobre o madeiro, desprezado até pelas blasfêmias de um mau ladrão. Não mais se lembram dos portentosos milagres por Ele operados, nem sequer de suas palavras: "Julgas porventura que Eu não posso rogar a meu Pai e que poria já ao meu dispor mais de doze legiões de anjos?" (Mt 26, 53). Sim, se fosse de sua vontade, numa fração de segundo poderia reverter gloriosamente aquela situação e manifestar a onipotência de sua realeza, mas não o quis, como o fez em outras ocasiões: "Jesus, sabendo que O viriam arrebatar para O fazerem rei, retirou-se de novo, Ele só, para o monte" (Jo 6, 15).
Quem discerniu em sua substância a Realeza de Cristo foi o bom ladrão, por se ter deixado penetrar pela graça. Arrependido em extremo, aceitou compungido as penas que lhe eram infligidas, e reconhecendo a Inocência de Jesus no mais fundo de seu coração, proclamou os segredos de sua consciência para defendê-La das blasfêmias de todos: "Nem tu temes a Deus, estando no mesmo suplício? Quanto a nós se fez justiça, porque recebemos o castigo que mereciam nossas ações, mas Este não fez nenhum mal" (vv. 40-41). Eis a verdadeira retidão. Primeiro, humildemente ter dor dos pecados cometidos; em seguida, com resignação abraçar o castigo respectivo; por fim, vencendo o respeito humano, ostentar bem alto a bandeira de Cristo Rei e aí suplicar- Lhe: "Senhor, lembra-Te de mim, quando entrares no teu Reino!" (v. 42)
Tenhamos sempre bem presente que só pelos méritos infinitos da Paixão de Cristo e auxiliados pela poderosa mediação da Santíssima Virgem nos tornaremos dignos de entrar no Reino.
Seguindo os passos da conversão final do bom ladrão, poderemos esperar com confiança ouvir um dia a voz de Cristo Rei dizendo também a nós: "Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso" (v. 43).
Eis uma solução eficaz para todas as crises atuais: a celebração solene da festa de Cristo Rei. Assim se exprime o Papa Pio XI a esse respeito: Cristo, fonte da verdadeira Paz
Se soubessem os homens resolver-se a reconhecer a autoridade de Cristo em sua vida particular e pública, deste ato para logo dimanariam em toda a humanidade incomparáveis benefícios: uma justa liberdade, a ordem e o sossego, a concórdia e a paz (...).
Se os príncipes e governos legitimamente constituídos tivessem a persuasão de que regem menos no próprio nome do que em nome e lugar do Rei Divino, é manifesto que usariam do seu poder com toda a prudência, com toda a sabedoria possíveis Em legislar e na aplicação das leis, como haveriam de atender ao bem comum e à dignidade humana de seus súditos! Então floresceria a ordem, então veríamos difundirem- se e firmarem-se a tranqüilidade e a paz (...).
Oh! que ventura não pudéramos gozar, se os indivíduos, se as famílias, se a sociedade se deixasse reger por Cristo! "Então finalmente - para citarmos as palavras que, há 25 anos, o Nosso Predecessor Leão XIII dirigia aos bispos do mundo inteiro - fora possível sanar tantas feridas; o direito recobraria seu antigo viço, seu prestígio de outras eras; tornaria a paz com todos os seus encantos. e Cristo Rei_1.jpgcairiam das mãos armas e espadas, quando todos de bom grado aceitassem o império de Cristo, Lhe obedecessem, e toda língua proclamasse que Nosso Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Padre" (Enc Annum Sacrum) (...).
As festividades, mais eficazes que os documentos
A fim de que a sociedade cristã goze largamente de tão preciosas vantagens, e para sempre as conserve, é mister que se divulgue quanto possível o.conhecimento da dignidade real de Nosso Salvador Ora, nada pode, pelo que nos parece, conseguir melhor este resultado, do que a instituição de uma festa própria e especial em honra de Cristo Rei.
Com efeito, para instruir o povo nas verdades da fé e levá-lo assim às alegrias da vida eterna, mais eficazes que os documentos do Magistério eclesiástico são as festividades anuais dos sagrados mistérios. Os documentos do Magistério, de fato, apenas alcançam. um restrito número de espíritos mais cultos, ao passo que as festas atingem e nstruem a universalidade dos fiéis Os primeiros, por assim dizer, falam uma vez só, as segundas falam sem intermitência de ano para ano; os primeiros dirigem-se, sobretudo, ao entendimento; as segundas influem não só na inteligência, mas também no coração, quer dizer, no homem todo Composto de corpo e alma, precisa o homem dos incitamentos exteriores das festividades, para que, através da variedade e beleza dos sagrados ritos, recolha no ânimo a divina doutrina, e, transformando- em substância e sangue, tire dela novos progressos em sua vida espiritual.
Além disso, ensina-nos a própria História, que estas festividades litúrgicas foram introduzidas no decorrer dos séculos, umas após outras, para. responder a necessidades ou vantagens espirituais do povo cristão. Foram-se constituindo para fortalecer os ânimos em presença de algum inimigo comum, para premunir os espíritos contra os ardis da heresia, para mover e inflamar os corações a celebrar com a mais ardente piedade algum mistério de nossa fé ou algum benefício da divina graça (...) Assim se deu com a festa de Corpus Christi, instituída quando se esfriava a reverência e o culto para com o Santíssimo Sacramento.
Instituição da festa
A festa, doravante anual, de "Cristo-Rei" dá-nos a mais viva esperança de acelerarmos a tão desejada volta da humanidade a seu Salvador amantíssimo (...) Uma festa, anualmente celebrada por todos os povos em homenagem a Cristo-Rei, será sobremaneira eficaz para condenar e ressarcir, de algum modo, esta apostasia pública (...).
Portanto, em virtude de Nossa autoridade apostólica, instituímos a festa de "Nosso Senhor Jesus Cristo Rei", mandando que seja celebrada cada ano, no mundo inteiro, no último domingo de outubro (...) porque ele, em certo modo, encerra o ciclo do ano litúrgico.
Festas Litúrgicas - Iesu Christi - Solenidades
A piedade católica, movida pelo Espírito Santo, modelou ao longo dos séculos, variadas formas de devoção àquilo que representa, de maneira tocante, a Redenção do gênero humano: a Santa Cruz de Jesus Cristo.
"O crux ave, spes unica. Hoc passionis tempore. Piis ad auge gratiam. Veniam dona reisque."
"Salve a cruz, nossa única esperança. Neste tempo de sofrimento concede graça e misericórdia aqueles que aguardam julgamento."
A condenação à morte pelo suplício da cruz era uma morte ignominiosa, reservada para os ladrões e assassinos. Segundo nos relata Cícero, os romanos tinham duas maneiras de eliminar os criminosos: uma nobre, a decapitação, e outra ignominiosa, que era a morte pela cruz. Portanto, Cristo morreu pela maneira mais cruel, a morte pela cruz.
Festas Litúrgicas - Iesu Christi - Liturgia - Santa Igreja
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