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Comentário ao Evangelho - Pe. João Scognamiglio Clá Dias, EP
XXXIII Domingo do Tempo Comum 
Evangelho Lc 21, 5-19

“Naquele tempo, algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas. Jesus disse: ‘Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído’. Mas eles perguntaram: ‘Mestre, quando acontecerá isto? E qual vai ser o sinal de que estas coisas estão para acontecer?’. Jesus respondeu: ‘Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu!’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não sigais essa gente! Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não fiqueis apavorados. É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim’. E Jesus continuou: ‘Um povo se levantará contra outro povo, um país atacará outro país.  Haverá grandes terremotos, fomes e pestes em muitos lugares; acontecerão coisas pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu. Antes, porém, que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos; sereis entregues às sinagogas e postos na prisão; sereis levados diante de eis e governadores por causa do meu nome.  Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé.  Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência a própria defesa;  porque Eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater.  Sereis entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos, parentes e amigos. E eles matarão alguns de vós.  Todos vos odiarão por causa do meu nome.  Mas vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça. É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!’.

Ao longo de sua bimilenar História, a Igreja caminhou sempre sob o signo da perseguição. Entretanto, a cada investida das forças adversárias, brilha ela com maior esplendor.

O Sinal dos verdadeiros discípulos

Conta-se que São Pio X, durante audiência aos membros de um dos colégios eclesiásticos romanos, perguntou aos jovens estudantes:

–– Quais são as notas distintivas da verdadeira Igreja de Cristo?

— São quatro, Santo Padre: Una, Santa, Católica e Apostólica — respondeu um deles.

–– Não há mais de quatro? — indagou o Papa.

–– Ela é também Romana: Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana.

–– Exatamente, mas não falta mencionar ainda uma característica das mais evidentes? –– insistiu o Pontífice.

Após um instante de silêncio, ele próprio respondeu:

— Ela é também perseguida! Esse é o sinal de sermos verdadeiros discípulos de Jesus Cristo.

Ódio contra Cristo e sua Igreja

A Igreja é perseguida. De fato, sem essa nota não se entende bem a história da Esposa de Cristo, que já começa sob esse signo na mais tenra infância do seu Divino Fundador. Que mal poderia fazer a Herodes aquele Menino, filho de carpinteiro, nascido numa gruta e deitado numa manjedoura? Nenhum. Mas na ímpia tentativa de tirar-Lhe a vida, o tetrarca não hesitou em mandar assassinar crianças inocentes.

Ao longo da vida pública de Jesus, o ódio contra Ele não fez senão crescer, e chegou ao paroxismo quando os fariseus tomaram a decisão de matá-Lo e obtiveram de Pilatos a iníqua sentença de condenação. De tal forma detestavam o Divino Mestre, que não toleravam sequer vê-Lo fazer o bem, ou ensinar a doutrina da Salvação.

Nessa mesma inimizade encontra-se a fonte das investidas sofridas pela Igreja após a subida de Nosso Senhor ao Céu. Assim, foi movido por ódio furibundo contra os cristãos que Nero deu início, no ano 64, à sangrenta perseguição que haveria de durar, com intermitências, até 313, quando o Imperador Constantino concedeu liberdade à Igreja, pelo Edito de Milão.

E ao longo dos séculos subsequentes, a Esposa de Cristo nunca deixou de enfrentar os mais variados ataques — por vezes cruentos — e incessantes oposições, ora abertas, ora solapadas. Mesmo em nossos dias, este ódio contra aqueles que praticam o bem não deixa de se manifestar em seus múltiplos aspectos.

Os maus não suportam os bons

“Se o mundo vos aborrece, sabei que aborreceu primeiro a Mim. Lembrai-vos da palavra que Eu vos disse: ‘O servo não é maior que seu Senhor’. Se Me perseguiram a Mim, também a vós vos perseguirão” (Jo 15, 18.20). Por estas palavras de Jesus, vemos serem a adversidade e a incompreensão inerentes à existência terrena do verdadeiro fiel, pela irreversível incompatibilidade entre a doutrina do mundo e a de Cristo. Pois, desde o tempo dos nossos primeiros pais, há entre a bendita posteridade de Maria Santíssima e a raça da serpente maldita o irreconciliável antagonismo descrito pelo Gênesis: “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3, 15).

Os maus não suportam os bons, e para estes, o ódio daqueles indica eleição por parte de Deus, conforme se depreende destas palavras de São Jerônimo a Santo Agostinho: “Sois celebrado por todo o mundo. Os católicos veneram e reconhecem em vós o restaurador da antiga Fé, e — o que é sinal de glória ainda maior — todos os hereges vos detestam e perseguem com o mesmo ódio que a mim, anelando matar-nos com o desejo, já que não podem fazê-lo com as armas”.

É na fidelidade dos justos diante das perseguições que reluz de modo especial a glória de Deus.

Anúncio do fim do mundo

A liturgia escolhida pela Igreja para este penúltimo Domingo do Tempo Comum significa praticamente o término do Ano Litúrgico C, uma vez que antecede à Solenidade de Cristo Rei. A perspectiva do fim do mundo e do Juízo Final é muito acentuada nos textos, e convida-nos a considerar com mais atenção a justiça, contraponto indispensável da bondade e da misericórdia divinas.

“Naquele tempo,  algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas”.

Após acerba discussão com os escribas e fariseus, ocorrida justamente no recinto do Templo (cf. Lc 20, 45-47; Mt 23, 13-36; Mc 12, 38-40), dirigia-Se Jesus ao Monte das Oliveiras. No caminho, os discípulos manifestavam seu encanto com a beleza daquela “construção de imensa opulência”, no dizer de Tácito,3 rica em simbologias que elevavam a mente para Deus, como convém a todo edifício religioso.

Ponto de referência máximo do povo judeu, para o Templo se voltavam os corações dos israelitas do mundo inteiro. Extraordinária era sua história, desde o momento em que, erigido por Salomão, uma densa e miraculosa nuvem dele tomara conta: ali ofereciam-se os verdadeiros sacrifícios, eram recebidas insignes graças e os devotos entravam num contato mais intenso com o sobrenatural. Embelezar o Templo era, então, realçar ainda mais o seu significado espiritual.

Entretanto, a julgar pelas palavras ditas a seguir por Nosso Senhor, tudo indica que estavam eles contemplando a Casa de Deus com uma visualização meramente naturalista.

Admiravam o Templo, mas não adoravam Quem o habitava

“Jesus disse: ‘Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído’”.

Os Apóstolos tinham diante de si Alguém que valia muito mais do que o Templo: o Criador, o Redentor, a Sabedoria eterna e encarnada. Ao contemplarem com olhos mundanos aquele prédio, manifestavam-se cegos para Deus, porque detinham-se na admiração da criatura sem se elevar até o Criador; compreendiam o símbolo, mas não o Simbolizado. Esta é a razão da contundente advertência de Nosso Senhor.

Pelas mãos de Maria, fora o Menino Jesus apresentado no Templo. Suas muralhas testemunharam as pregações e os inúmeros milagres de Jesus, mas as pedras vivas que o compunham — os sacerdotes e os fiéis — não aceitaram o Messias: “Ele veio para os seus e os seus não O receberam” (Jo 1, 11). Eis por que caiu sobre tão faustoso edifício a terrível condenação: “Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído”.

E essa dura profecia tardaria menos de quarenta anos em realizar-se do modo mais radical possível. “Permitiu a Divina Providência a destruição de toda a cidade e do Templo para que nenhum daqueles que ainda estavam débeis na fé — admirado por subsistirem ainda os ritos de seus sacrifícios — fosse seduzido por suas diversas cerimônias”, comenta São Beda.

A ruína de Jerusalém e a parusia

“Mas eles perguntaram: ‘Mestre, quando acontecerá isto? E qual vai ser o sinal de que estas coisas estão para acontecer?’”.

Os Apóstolos nada perguntam sobre a causa dessa destruição, mas sim quando ela ocorreria. Como bons israelitas, de espírito previdente, queriam saber com exatidão o que iria suceder. O arrasamento do edifício sagrado, símbolo da grandeza do povo eleito, parecia-lhes impossível antes do fim dos tempos, pois, “para um judeu, a ruína da cidade e do Templo equivale à ruína do mundo”.5 Não podiam eles conceber que algum dia lhes faltaria aquele Lugar Santo, único no mundo. Esta é a razão de juntarem em suas perguntas dois fatos totalmente distintos: a ruína de Jerusalém e a parusia.

Como observa São Cirilo, os Apóstolos “não perceberam a força de suas palavras e julgavam que Ele falava da consumação dos séculos”.7 Por isso, Nosso Senhor, “sem deixar de responder à pergunta com clareza suficiente para eles conjecturarem os acontecimentos vaticinados”,8 falará em dois sentidos: um, a destruição do Templo material; outro, o fim do mundo. Na realidade, o desaparecimento dessa grandiosa construção significava o fim de um mundo: a época da antiga Lei cedia lugar à era da Graça.

Ver todos os acontecimentos na perspectiva divina

“Jesus respondeu: ‘Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu!’; e ainda: ‘O tempo está próximo.’ Não sigais essa gente!  Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não fiqueis apavorados. É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim’.  E Jesus continuou: ‘Um povo se levantará contra outro povo, um país atacará outro país.  Haverá grandes terremotos, fomes e pestes em muitos lugares; acontecerão coisas pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu’”.

Jesus responde aos discípulos com uma linguagem enigmática, sem procurar desfazer o equívoco em que incorriam, nem responder-lhes com exatidão. Prefere deixar num lusco-fusco os aspectos cronológicos da pergunta, com vistas à formação moral e espiritual dos seus ouvintes.

Com efeito, a expectativa do fim do mundo como um evento próximo habituava-os a contemplar os acontecimentos desde a perspectiva divina, e preparava as almas daqueles primeiros cristãos para as perseguições que teriam de enfrentar, prefiguras dos últimos tempos, pelo ódio e crueldade dos perseguidores. Ora, sempre que os pecados da humanidade passam de certo limite, Deus intervém manifestando sua cólera e castigando os caprichos e egoísmos dos homens.

Com a Encarnação, Deus levara seu amor às criaturas a um ponto inexcogitável pelos homens, e mesmo pelos anjos. Uma extrema bondade caracterizou a vida pública de Jesus, marcada por inúmeras curas e milagres. Porém, Ele não seria Deus se não manifestasse também o esplendor da sua justiça, virtude não menor que a misericórdia. Tem Ele, por assim dizer, duas mãos: a da misericórdia e a da justiça. Com a primeira, perdoa e protege; com a segunda, cobra e castiga. De uma dessas mãos divinas, ninguém escapa.

Para contemplar a Deus na perspectiva verdadeira, sem distorções nem unilateralismos, é preciso amar n’Ele esses dois aspectos. Considerar a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade morrendo na Cruz para nos redimir, é poderoso estímulo para a nossa piedade. Mas não podemos também deixar de admirar sua severidade, ainda quando ela possa vir a nos atingir.

Porque, como ensina Santo Afonso Maria de Ligório, “não merece a misericórdia de Deus quem se serve dela para ofendê“Nossa Senhora do Apocalipse” - Casa -Lo. A misericórdia é para quem Rosa Mística, dos Arautos do Evangelho, teme a Deus, e não para o que São Paulo dela se serve com o propósito de não temê-Lo. Aquele que ofende a justiça — diz o Abulense — pode recorrer à misericórdia; mas a quem pode recorrer o que ofende a própria misericórdia?”.

Sereis presos e perseguidos

“Antes, porém, que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos; sereis entregues às sinagogas e postos na prisão; sereis levados diante de reis e governadores por causa do meu nome”.

Ao anunciar aos Apóstolos as perseguições e sofrimentos que haveriam de enfrentar, Nosso Senhor tinha em vista também instruir os cristãos de todos os tempos, porque inúmeras vezes ao longo da História a proclamação do nome de Jesus Cristo lhes trará como consequência serem injustamente presos, perseguidos ou conduzidos aos tribunais. E isto chegará ao auge nos últimos tempos, pois quanto maior for a decadência moral da humanidade, inelutavelmente mais ódio haverá contra os justos, cuja mera existência já representa muda censura aos maus.

Bem pondera São Gregório Magno: “A última tribulação será precedida de muitas outras, porque devem vir antes muitos males que possam anunciar o mal sem fim”.

Testemunhas da fé na hora da provação

 “Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé”.

Errôneo seria pensar que durante as perseguições cabe aos bons ficarem encolhidos e timoratos, incapazes de qualquer ação. Pelo contrário, dão-lhes elas ensejo a testemunharem com coragem a boa doutrina diante daqueles que se desviaram do caminho certo.

Ao afirmar que as portas do inferno não prevalecerão contra a sua Igreja (cf. Mt 16, 18), estabeleceu o Divino Fundador que ela será não apenas invencível, mas sempre triunfante. Assim, por mais que os infernos, não podendo destruí-la, se organizem para sufocá-la, jamais conseguirão impedir sua atuação. E, sejam quais forem as aparências, a Luz de Cristo permanecerá em sua Esposa com todo o seu poder e grandeza, aguardando o momento de manifestar-se de forma intensa, majestosa e irresistível.

Nessas horas de tempestade, suscita a Providência testemunhas da fé que sejam fachos da Luz de Cristo a rasgar a obscuridade da provação. Muitas vezes, inclusive, Deus Se utiliza de instrumentos frágeis, de modo a deixar mais patente sua onipotência: Gedeão, último homem da tribo de Manassés; Judite, piedosa viúva; e os próprios Apóstolos, simples pescadores. E, se percorrermos as grandes aparições da Virgem Maria, desde Guadalupe até Fátima, a quem vemos como receptores da mensagem, senão pessoas de escassa cultura e predicados?

Quanto aos acontecimentos do fim do mundo, serão justamente a firmeza na fé e a força impetratória dos fiéis, perante o ódio insaciável dos sequazes do anticristo, que atrairão a intervenção divina, desencadeando o castigo final.

Conselho divino confirmado pela História

“Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência a própria defesa; porque Eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater”.

Com esta surpreendente afirmação, parece Nosso Senhor convidar seus discípulos à negligência, ao invés de incentivá-los a se prevenirem perante a perspectiva da perseguição. Ora, esclarece o Cardeal Gomá, Jesus “não lhes manda que não procurem precaver-se nos transes difíceis pelos quais passarão, mas sim que não se aflijam por isso, pois nos momentos de crises mais agudas poderão contar com a inspiração especial de Deus”.

De fato, na luta de todos os dias, vale o princípio atribuído a Santo Inácio: “Rezai como se tudo dependesse de Deus e trabalhai como se tudo dependesse de vós”.12 Mas nesta passagem do Evangelho refere-Se o Mestre aos momentos de extrema aflição em que tudo parece perdido. Nessas horas, comenta São Gregório, “é como se o Senhor dissesse a seus discípulos: ‘Não vos atemorizeis. Vós ireis ao combate, mas Eu é que combaterei; vós pronunciareis palavras, mas quem falará sou Eu’”.13

E a História comprova com abundância a esplêndida realização dessa profecia de Nosso Senhor, nos julgamentos iníquos promovidos contra os filhos da luz. Santa Joana d’Arc, por exemplo, era uma camponesa sem estudos; suas respostas, entretanto, confundiram o tribunal que a julgava, pela extraordinária profundidade teológica.

Deserção e traição nas próprias fileiras

 “Sereis entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos, parentes e amigos. E eles matarão alguns de vós.  Todos vos odiarão por causa do meu nome”.

Até no seio das próprias famílias haverá divisão, multiplicando o sofrimento daqueles que serão entregues por “pais, irmãos, parentes e amigos”. Pois, como ensina São Gregório, “os mais cruéis tormentos para nós são os causados pelas pessoas mais queridas, porque, além da dor corporal, sentimos o carinho perdido”.

Já o Cardeal Gomá interpreta este versículo num sentido simbólico, mais abrangente: “Aos vexames que deverão sofrer da parte dos inimigos, se acrescentará um mal mais grave: a deserção e a traição nas próprias fileiras”.15 Com efeito, quantas vezes não foram hereges ou apóstatas os mais acirrados adversários da Igreja?

Deus é o principal Ator da História

 “Mas vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça”.

Julgamos, por vezes, serem raríssimas as intervenções de Deus nos acontecimentos terrenos. Como se Ele, após criar o universo, deixasse os fatos correrem por si, procedendo de forma semelhante a alguém que planta uma árvore e se despreocupa totalmente do seu crescimento. Nada mais contrário à realidade. Deus não só age na História, mas, sobretudo, é seu principal Ator. Tudo está em suas santíssimas mãos, nada foge ao seu governo: “Em Deus vivemos, nos movemos, e somos” (At 17, 28).

Às vezes, a ação da Divina Providência nos fatos concretos é visível aos olhos de todos, por ser desígnio seu torná-la patente. Porém, na maior parte das ocasiões, Ela opera de forma oculta ou discreta, deixando por conta do nosso entendimento e da nossa fé discernir o cunho de sua atuação.

O Criador tem tudo contado, pesado e medido. E, ao agir sobre os acontecimentos, tem sempre em vista, junto com a própria glória, a salvação dos que são seus. Por isso, afirma São Paulo: “Tudo quanto acontece, concorre para benefício dos justos” (Rm 8, 28).

Cada um dos nossos atos, gestos ou atitudes serão consignados no Livro da Vida. Nenhum ato de virtude ficará sem recompensa, conforme afirma São Beda: “Não cairá um só fio de cabelo da cabeça dos discípulos do Senhor, porque não somente as grandes ações e as palavras dos santos, mas também o menor de seus pensamentos será dignamente premiado”.16

Esperança na vida verdadeira


“É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!”.

Todos nós, como os Apóstolos, estamos sujeitos a passar por situações difíceis em razão de nossa fidelidade a Cristo. Como devemos nos comportar diante delas?

Antes de tudo, precisamos crer firmemente na onipotência de Nosso Senhor e ter bem presente seu amor por cada um de nós, conforme nos exorta Santo Agostinho: “Essa é a Fé cristã, católica e apostólica. Confiai em Cristo que diz: ‘não cairá sequer um fio de vossos cabelos’, e, uma vez eliminada a incredulidade, considerai o quanto valeis. Quem de nós pode ser desprezado por nosso Redentor, se nem sequer um fio de cabelo o será? Ou: como duvidaremos de que dará a vida inteira à nossa carne e à nossa alma Aquele que, por amor a nós, recebeu alma e carne na qual morreu, e a recobrou para que desaparecesse o temor de morrer?”.17

Mas também não podemos duvidar de que Jesus Se encarnou para nos fazer partícipes de sua ressurreição: “Se Cristo não ressuscitou, vossa fé é vã” (I Cor 15, 17), proclama São Paulo.

Uma vez compenetrados de estarmos de passagem nesta Terra, a caminho da eternidade, todos os males que possamos sofrer tomam outra dimensão. “Quem sabe que é um peregrino neste mundo, independentemente do local onde se encontre corporalmente; quem sabe que tem uma pátria eterna no Céu; quem tem certeza de que ali se encontra a região da vida feliz, a qual aqui é lícito desejar, mas não é possível ter, e arde nesse desejo tão bom, santo e casto — esse vive aqui pacientemente”.18 É permanecendo firmes na Fé que ganharemos a verdadeira vida; é só na perspectiva da glória eterna que teremos forças para perseverar na hora das provações. E isto não depende tanto do nosso esforço quanto da graça divina, que devemos pedir sem cessar.

Proclamar a beleza triunfante da igreja

Dois significativos episódios históricos, entre tantos outros, podem ilustrar o ensinamento da liturgia deste domingo.

O filósofo iluminista François-Marie Arouet, mais conhecido pelo pseudônimo de Voltaire, foi um dos mais festejados ímpios de todos os tempos. Seu ódio contra a Igreja o levou a afirmar: “Estou cansado de ouvir dizer que bastaram doze homens para implantar o Cristianismo no mundo, e quero provar que basta um para destrui-lo”.19 Mas, o atrevido ateu morreu e a ridícula ameaça caiu no vazio.

Não menos arrogante com a Esposa de Cristo foi Napoleão Bonaparte. Após ser excomungado pelo Papa Pio VII, teve a petulância de perguntar sarcasticamente ao legado papal, Cardeal Caprara, se por causa disso iriam cair as armas das mãos dos seus soldados. Ora, segundo narram testemunhas oculares, entre as quais o Conde de Ségur, foi o que aconteceu durante a campanha da Rússia: “As armas dos soldados pareciam ser de um peso insuportável para seus braços intumescidos; em suas frequentes quedas, escapavam-lhes das mãos, quebravam-se ou perdiam-se na neve”.20

Meses depois, Bonaparte viu-se obrigado a assinar o decreto de sua própria destituição no palácio de Fontainebleau, onde mantivera cativo o Vigário de Cristo, e partiu para o exílio. Pio VII, entretanto, a quem ele chamara despectivamente de “velho”, ainda haveria de reinar por quase uma década, sobrevivendo por dois anos ao prisioneiro da Ilha de Santa Helena.

E, assim, poderíamos multiplicar os exemplos mostrando “ser uma característica da Igreja vencer quando atacada, ser melhor compreendida quando contestada e ganhar terreno quando abandonada”, segundo ensina Santo Hilário de Poitiers.21 Ao que o padre Monsabré acrescenta: “muitas vezes, no curso da Era Cristã, pôde-se ver o Corpo Místico do Filho de Deus a ponto de perecer, muitas vezes pôde-se vê-lo recobrar vida e avançar com passo resoluto rumo aos dias da eternidade”.22

Os períodos de perseguição nos convidam a depositar uma fé inquebrantável em Cristo e em sua Igreja, mas também a amá-Los de um modo todo especial. “Em tempo de grandes prevaricações”, afirma o Cardeal Gomá, “até os bons se tornam tíbios. Contudo, em meio às defecções e tibiezas, perseverarão os fortes, os que guardarem a fé e os bons costumes cristãos. Estes se salvarão: “Quem perseverar até o fim, será salvo” (Mt 24, 13). Sendo constantes, obtereis a salvação”.23


Ao nos situar diante de uma grandiosa perspectiva escatológica, o Evangelho deste domingo nos incita a proclamar a beleza triunfante da Santa Igreja, na confiança plena de que quem permanecer filialmente no seu seio obterá como prêmio o próprio Deus!

Comentário ao Evangelho por  Mons. João Scognamiglio Clá Dias
XXXII Domingo do Tempo Comum
Lucas 20, 27-38

Aproximaram-se depois alguns saduceus, que negam a ressurreição, e fizeram-Lhe a seguinte pergunta: “Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer o irmão de algum homem, tendo mulher, e não deixar filhos, case-se com ela o seu irmão, para dar descendência ao irmão.’ Ora, havia sete irmãos. O primeiro casou, e morreu sem filhos. Casou também o segundo com a viúva, e morreu sem filhos. Casou depois com ela o terceiro. E assim sucessivamente todos os sete; e morreram sem deixar filhos. Morreu enfim também a mulher. Na ressurreição, de qual deles será ela mulher, pois que o foi de todos os sete?” Jesus disse-lhes: “Os filhos deste mundo casam e são dados em casamento, mas os que forem julgados dignos do mundo futuro e da ressurreição dos mortos, não desposarão mulheres, nem as mulheres homens, porque não poderão jamais morrer; porquanto são semelhantes aos anjos e são filhos de Deus, visto serem filhos da ressurreição. Que os mortos hajam de ressuscitar, o mostrou também Moisés no episódio da sarça, quando chamou ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó. Ora Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, porque para ele todos são vivos” (Lc 20, 27-38).

Laus Tibi Chiste!

Afirma o Apóstolo que Jesus ressuscitou como “primícias dos que morrem” (1 Cor 15, 20). São Paulo não perde nenhuma oportunidade para acentuar a importância da ressurreição final com vistas a animar aos coríntios por ele batizados a continuarem firmes na fé, como também no trabalho apostólico. Segundo ele, sem essa fé, a tendência seria adotar-se um sistema de vida epicurista, relativista e libertino, conforme a expressão de Isaías: “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos” (22, 13).

No capítulo 15 de sua Primeira Epístola aos Coríntios, depois de denominar de “insensato” a quem se põe o problema de como e em que condições ressuscitam os mortos, ele procura esclarecer de forma muito simples e acessível a revelação sobre a identidade substancial dos corpos nesta vida terrestre e os readquiridos após o Juízo Final, apesar das enormes diferenças de propriedade e aspecto entre o morto e o ressurrecto.

A comparação é retirada da natureza vegetal. Desta, Paulo faz uma aproximação entre a morte do grão ao ser semeado, sua posterior germinação e frutificação, com o nosso retorno à vida, no dia do Juízo. “Assim também será a ressurreição dos mortos. Semeia-se na corrupção, ressuscita-se na incorrupção. Semeia-se na ignomínia, ressuscita-se glorioso. Semeia-se na debilidade, ressuscita-se na força. Semeia-se um corpo natural, ressuscitará um corpo espiritual” (1 Cor 15, 42-44).

Nosso corpo participa dos prêmios e castigos da alma

Mais de um milênio após essa proclamação de Paulo, o Doutor Angélico nos deixaria uma rica e profunda doutrina sobre a essência dessa revelação. Sempre levando em conta estar a alma unida ao corpo como forma e matéria, e “como a alma é a mesma especificamente, parece que deve ter também a mesma matéria específica. Logo, será o mesmo corpo antes e depois da ressurreição. E assim, será preciso que esteja composto de carne e ossos, e de outras partes da mesma classe” 1.

Nosso corpo ressuscitará porque Deus assim quis e determinou, como também por ser parte integrante de nós mesmos, merecendo os prêmios ou castigos conforme caibam à nossa alma na medida em que tenha participado dos méritos ou das iniqüidades da mesma. Por isso, “entre os bons e os maus permanecerá uma diferença fundamentada no que pertence pessoalmente a cada um. […] e como a alma merece, pelos seus atos pessoais, ser elevada à glória da visão de Deus ou ser excluída pela culpa da ordenação para tal glória, segue-se, como conseqüência, que todo corpo se conformará segundo a dignidade da alma” 2.

Os corpos dos justos se revestirão de glória

A morte não é senão um sono prolongado (cf. Jo 11, 11), e os cemitérios, vastos dormitórios. Os que repousam no pó da terra despertarão, uns para a felicidade eterna, outros para as trevas e castigo também eternos (cf. Dn 12, 2). Os bons, já no acordar, terão seus corpos em claridade. “Pela claridade da alma elevada à visão de Deus, o corpo, unido à alma, alcançará algo mais. Pois estará totalmente sujeito a ela pelo efeito da virtude divina, não só enquanto ser, mas também enquanto ações e paixões, movimentos e qualidades corpóreas. Portanto, assim como a alma se encherá de certa claridade espiritual, ao gozar da visão divina, também, por certa redundância desta no corpo, se revestirá este, à sua maneira, da claridade da glória”. 3

Ademais, os corpos dos bons, no próprio instante da ressurreição, gozarão da agilidade. “A alma, que unida a seu fim último gozará da visão divina, experimentará o cumprimento total de seu desejo em tudo. E como o corpo se move conforme o desejo da alma, resultará que o corpo obedecerá absolutamente à indicação do espírito. Por isso os corpos que terão os bemaventurados ressuscitados serão ágeis. E isto é o que diz o Apóstolo no mesmo lugar (1 Cor 15, 43): Semeado na fraqueza ressuscita vigoroso. Pois experimentamos a fraqueza corporal porque o corpo se sente incapaz de responder aos desejos da alma nas ações e movimentos que lhe impõe; fraqueza que, então, desaparecerá totalmente pela virtude que sobeja no corpo ao estar a alma unida a Deus. Por isso, na Sabedoria (3,7) se diz também dos justos que correrão como centelhas na palha, não porque tenham que moverse necessariamente, pois tendo a Deus de nada precisam, mas para demonstrar seu poder” 4.

O corpo glorioso se levantará da poeira da terra, espiritualizado, dotado de sutileza. “A alma que goza de Deus se unirá perfeitissimamente a Ele e participará de Sua bondade em grau sumo, conforme sua própria medida; e de igual modo o corpo, pois este se sujeitará perfeitamente à alma” 5.

A impassibilidade dos corpos gloriosos não permitirá a existência de nenhum defeito, dor ou mal. “A alma que goza de Deus terá tudo em ordem à remoção de todo mal, porque onde está o Sumo Bem não cabe mal algum. Logo, também o corpo, aperfeiçoado pela alma e em proporção a ela, será imune de todo mal, não só atual, mas inclusive do mal possível. Do atual, porque em ambos nem haverá corrupção, nem deformidade, nem defeito nenhum. Do possível, porque nada poderão sofrer que lhes perturbe. E por isso serão impassíveis. Mas esta impassibilidade não excluirá neles as paixões essencialmente sensíveis, porque usarão dos sentidos para gozar daquilo que não repugna o estado de incorrupção” 6.

Ressurreição dos condenados

Os maus também ressuscitarão íntegros. “As almas dos condenados têm efetivamente natureza boa, que foi criada por Deus; mas terão a vontade desordenada e afastada do próprio fim. Portanto, seus corpos, no que se refere à natureza, serão reparados e íntegros, pois ressuscitarão na idade perfeita, com todos os seus membros e sem nenhum defeito, nem corrupção que tivesse ocasionado uma falha da natureza ou enfermidade” 7.

As almas dos maus, ao ressuscitarem seus corpos, estarão sujeitas a estes; diferentemente da situação dos bem-aventurados, serão elas carnais e não espirituais. “Como sua alma estará voluntariamente separada de Deus e privada de seu próprio fim, seus corpos não serão espirituais, ou seja, sujeitos totalmente ao espírito, senão que sua alma será carnal pelo afeto” 8.

Nem de longe experimentarão a agilidade dos corpos gloriosos. Muito pelo contrário, serão de certo modo sujeitos à lei da gravidade. “Tais corpos não serão ágeis, nem obedientes à alma, sem dificuldade, mas serão graves e pesados, de certo modo insuportáveis à alma, tais quais são as mesmas almas que se afastaram de Deus pela desobediência” 9.

Serão ainda mais sujeitos às dores e ao sofrimento do que o somos nós nesta vida terrena mas, sem nunca em nada se corromper, além das respectivas almas serem “atormentadas pela privação total do desejo natural da bem-aventurança” 10.

E pelo fato de estar a alma excluída da luz do conhecimento divino, seus corpos serão “opacos e tenebrosos” 11.

Sobre esses desgraçados, triunfará a morte. Ressuscitarão para ser lançados na morte eterna. A eles não se aplicarão as palavras de Isaías (25, 8) e Oséias (13, 14) citadas pelo Apóstolo “A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Cor 15, 55).

 A cilada dos Saduceus

Essa é a maravilhosa realidade — revelada por Cristo Jesus e explicitada pela Igreja infalível — que nossa fé católica nos faz aguardar com fortalecida esperança. Mas, na Antiguidade nem de longe essa doutrina era assim conhecida. Sobretudo era ignorada entre os pagãos e mais especialmente em meio a certas correntes filosóficas da Grécia. Não é difícil compreender a razão pela qual se tinha criado obstáculos contra a possibilidade de haver ressurreição.

Antes de tudo devemos considerar a constatação histórica, no dia-adia, sobre os mortos: quais deles retornam à vida? Porém, indo mais ao fundo do problema, encontramos a luta que se estabelece no interior de todo homem entre suas más inclinações e sua consciência. Sendo a criatura humana um monolito de lógica, se admite ela a ressurreição dos corpos como um prêmio ou castigo eternos em proporção aos méritos ou culpas, ver-se-á na obrigação de cumprir as leis morais contra sua própria concupiscência. Sem a graça de Deus, essa batalha sempre termina mal. Ora, foi bem exatamente esse o resultado obtido pelos povos da Antiguidade, chegando alguns filósofos a defender a tese da materialidade da alma e de sua morte concomitante à do corpo.

Origem do partido dos saduceus

Sob o império de Alexandre Magno (356 – 323 a.C.) houve um enorme empenho na helenização e colonização do território pertencente aos hebreus. Do povo eleito, a classe mais abastada foi a mais atingida pela influência estrangeira e, aos poucos, transformou-se numa espécie de aristocracia sacerdotal, dando origem ao partido dos saduceus.

Cumpridores exatos das formalidades da Lei, os membros desse partido eram, na realidade, incrédulos e relativistas em matéria moral. Reduziam ao mínimo as exigências dogmáticas e não receavam professar erros crassos hauridos do mundo pagão, como por exemplo chegavam a se opor à existência dos anjos e, pior ainda, não aceitavam a própria existência das almas separadas dos corpos. Negavam inclusive a providência de Deus, como também Sua ação sobre os acontecimentos. Eram ateus-práticos e apesar de se revestirem dos cerimoniais do culto da religião judaica, não passavam de semipagãos. Não é difícil concebê-lo pois, ainda nos dias de hoje esbarramos não poucas vezes com pessoas dessa mentalidade e submersas nas mesmas convicções.

Apesar do número dos saduceus ser proporcionalmente muito reduzido, a péssima influência por eles exercida sobre o povo, era bem considerável, devido à sua situação social. Seu nome tem origem na palavra hebraica ṣadiq (‫ ,)צדיק‬ou seja, justo. Talvez por arrogância própria, eles mesmos escolheram esse nome, ou por debique lhes foi conferido por outros.

Os saduceus constituíam uma forte corrente, em oposição os fariseus. Os dois partidos compunham o quadro político social e religioso vigente durante a vida pública do Divino Mestre. Apesar do caráter inteiramente pacífico, ordeiro e caritativo em extremo da atuação de Jesus, essas correntes — acrescentemos ademais o sinédrio, os escribas e os herodianos — se alternavam para de maneira encarniçada Lhe armar alguma cilada da qual pudesse resultar sua prisão e condenação à morte. Eis a vez dos saduceus com seu deboche feito de ceticismo.

A objeção levantada pelos saduceus

Aproximaram-se depois alguns saduceus, que negam a ressurreição, e fizeram-Lhe a seguinte pergunta: “Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer o irmão de algum homem, tendo mulher, e não deixar filhos, case-se com ela o seu irmão, para dar descendência ao irmão.’ Ora, havia sete irmãos. O primeiro casou, e morreu sem filhos. Casou também o segundo com a viúva, e morreu sem filhos. Casou depois com ela o terceiro. E assim sucessivamente todos os sete; e morreram sem deixar filhos. Morreu enfim também a mulher. Na ressurreição, de qual deles será ela mulher, pois que o foi de todos os sete?”.

Sobre esses versículos, afirma Filion: “A citação dos saduceus era exata quanto ao sentido. Esta prescrição, que não era particular dos judeus, pois também é encontrada em vários povos antigos, como os egípcios, os persas e os hindus, e ainda hoje entre os circasianos, é conhecida com o nome de lei do Levirado, que seria a lei que regula o matrimônio entre cunhados e cunhadas. Tinha por objetivo conservar o ramo primogênito de cada família e impedir a excessiva transmissão dos bens a outrem. Não estava limitada aos irmãos do marido morto sem filhos, mas se estendia também aos parentes próximos, como sabemos pelo livro de Ruth (3, 9-13). Não era estritamente obrigatória, mas o que se recusasse cumpri-la tinha que se submeter a uma cerimônia humilhante (Dt 25, 7-10; Rt 4, 1-11). Apesar de que no tempo de Nosso Senhor já havia caído em descrédito, que irá aumentando com os anos, não havia cessado de estar em vigor na Palestina. […]

“Esta breve narração, picante e rápida, é um modelo de casuística refinada. Seus autores davam por seguro que a questão que acabavam de propor a Jesus lhe co- locaria seguramente em um grande apuro. Como poderá responder esta deductio in absurdum? Não parece que fere de morte o dogma da ressurreição dos corpos, provando que deste nascem dificuldades insolúveis? Ainda que não tivesse havido mais do que dois matrimônios, a questão se apresentaria do mesmo modo (a bem da verdade, a propuseram alguns rabinos e estes a haviam resolvido dizendo que neste caso a mulher pertenceria, na outra vida, ao primeiro dos dois maridos. Zohar Gen. 24, 96); mas, multiplicando-os desta maneira, os saduceus conseguem ressaltar mais a objeção” 12.

Entretanto, poderíamos, com segurança, afirmar ser característica evidente de inteligência superficial e sem substância, o julgar os acontecimentos e o próprio ser humano pelas simples aparências sensíveis, sem nunca se elevar ao invisível. Para esse tipo de gente, Deus lhes é semelhante e a eternidade não é senão um prolongamento do mundo atual se é que ela existe. Não se poderia esperar outro tipo de objeção de um libertino para justificar seu relativismo.

É incrível a semelhança do discurso dos saduceus com o raciocínio de certos filósofos atuais e de outros tempos. São tão numerosas as oposições ao dogma da ressurreição surgidas ao longo da História que se fôssemos catalogá-las todas, seria intérmina sua coleção.

Resposta do Divino Mestre

Jesus disse-lhes: “Os filhos deste mundo casam e são dados em casamento, mas os que forem julgados dignos do mundo futuro e da ressurreição dos mortos, não desposarão mulheres, nem as mulheres desposarão homens, porque não poderão jamais morrer; porquanto são semelhantes aos anjos e são filhos de Deus, visto serem filhos da ressurreição”.

Em nossa vida terrena, devido à mortalidade, a existência da sucessão é indispensável para perpetuar-se a humanidade, e por consequência o matrimônio será uma exigência até se completar o número dos eleitos.

Ora, a eternidade, enquanto excelente imagem de Deus, não comportará a morte, e os bem-aventurados viverão exclusivamente nas leis do Espírito, no conhecimento e amor de Deus, vendo-O face a face. Os corações e as inteligências estarão unidos nas castas delícias da caridade perfeita, sem nenhuma necessidade do matrimônio. “Porque os casamentos são feitos para se ter filhos; os filhos vêm para a sucessão; e a sucessão chega pela morte; portanto, onde não há morte não há casamentos” 13.

Não é demais insistirmos que erraríamos se julgássemos ser a ressurreição um acontecimento exclusivo aos corpos dos justos. Não se deve crer “que unicamente ressuscitarão os que sejam dignos ou os que não se casam, mas também ressuscitarão todos os pecadores, e não se casarão na outra vida. Além do mais, o Senhor, para estimular nossas almas a buscar a ressurreição gloriosa, quis falar somente dos eleitos” 14.

Depois da ressurreição, os corpos dos eleitos serão “angelizados” e já não estarão sujeitos às leis da matéria e nem às da animalidade, conforme anteriormente dissemos. Torna-se patente, assim, o quanto devemos evitar o pecado pois, “se viverdes segundo a carne, morrereis [ressuscitar para ser lançado em corpo e alma no inferno, é morte eterna], mas se, pelo Espírito, fizerdes morrer as obras da carne, vivereis” (Rm 8, 13).

Deus não cria nossos corpos diretamente como o faz com nossas almas. Nesse sentido, somos filhos dos homens, expostos a todas as contingências inerentes à nossa natureza, até a morte. Como “filhos da ressurreição”, seremos filhos da onipotência divina, a qual restaurará nossos corpos de forma imediata, sem o concurso nem sequer de nossos pais terrenos.

Eis o quanto estavam errados os saduceus com seus falsos e infundados argumentos. Quando se afasta de Deus e de sua Revelação, o homem sempre cria sistemas de pensamento obscuros, estreitos e obtusos.

A imortalidade da alma

“Que os mortos hajam de ressuscitar, o mostrou também Moisés no episódio da sarça, quando chamou ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó. Ora Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, porque para ele todos são vivos.”

Nesses versículos, claramente defende o Divino Mestre a imortalidade da alma, depois de ter revelado a ressurreição dos corpos. As Escrituras têm outras passagens ainda mais explícitas sobre a ressurreição (Dn 12, 2; Is 26, 19) que bem poderiam ter sido enunciadas por Jesus. Mas Ele lançou mão do exemplo ocorrido na vida de Moisés, para refutar a citação feita pelos próprios saduceus ao Levirato (Dt 25, 5-6).

Se o homem, ao morrer, se precipitasse no vazio, aniquilando-se em seu ser, todas as promessas da Escritura cairiam também no vazio. Deus jamais reduz ao nada qualquer de suas criaturas. As formas podem ser mutáveis, mas as substâncias permanecem. Nossos corpos são como que invólucros de nossas almas. Estas podem se desprender daqueles, cessando de emitir aos nossos sentidos as manifestações de sua existência, mas continuarão a viver na vingança ou no amor de Deus, nas trevas ou na Luz eternas.

“Se Deus se define como ‘Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó’ e é um Deus de vivos, não de mortos, então quer dizer que Abraão, Isaac e Jacó vivem em alguma parte; se bem que, no momento em que Deus fala a Moisés, eles já haviam desaparecido há séculos. Se existe Deus, existe também a vida além do túmulo. Uma coisa não pode estar sem a outra. Seria absurdo chamar a Deus de ‘o Deus dos vivos’ se, no final, Ele se encontrasse só para reinar sobre um imenso cemitério de mortos. Não entendo as pessoas (parece que existem) que dizem crer em Deus, mas não em uma vida ultra-terrena.

“Apesar disso, não é necessário pensar que a vida além da morte começa só com a ressurreição final. Aquele será o momento em que Deus, também, tornará a dar vida aos nossos corpos mortais” 15.

Conclusão

Frustradamente vive o mundo, hoje em dia, à busca de novos prazeres, a fim satisfazer a sede de infinito que arde no âmago da alma humana. Se pudessem os homens ouvir um acorde da música celeste que arrebatou em êxtase a São Francisco, ou contemplar por um rápido momento a face de Deus que levou a São Silvano ter repugnância às faces dos homens, compreenderiam o quanto as delícias do Céu são puríssimas, eternas e opostas às da Terra.

Sêneca comentando o suicídio de Catão, concretizado com o auxílio de um punhal, para fugir das considerações de uma Roma que perdera a liberdade, afirma que o motivo principal de sua morte estava centrado na doutrina elaborada por Platão em sua obra Fedon, na qual explana longamente a imortalidade da alma. Em sua genialidade, Sêneca resume o ato com esta frase: “Ferrum fecit ut mori posset, Plato ut vellet”: O ferro (aço) fez que pudesse morrer, Platão que quisesse.” Se os próprios pagãos quando fiéis à razão chegavam a essas conclusões, por que nós batizados haveremos de seguir os equívocos dos saduceus?
Comentário ao Evangelho por Monsenhor João Clá Dias
XXX Domingo do Tempo Comum  
Lc 18, 9-14

Disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros: “Subiram dois homens ao templo a fazer oração: um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava no seu interior desta forma: Graças Te dou, ó Deus porque não sou como os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros; nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo o que possuo. O publicano, porém, conservando-se à distância, não ousava nem sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito dizendo: Meu Deus, tende piedade de mim, pecador. Digo-vos que este voltou justificado para sua casa e o outro não; porque quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado” (Lc 18, 9-14).

Se quisermos ter certeza de que nossa oração é atendida por Deus, devemos imitar o modo de rezar do publicano, humilhando-nos diante dEle e pedindo perdão por nossos pecados.

O orgulho: causa de todos os vícios

“Serpentes! Raça de víboras!” Eis alguns dos títulos saídos dos divinos lábios de Jesus para designar os fariseus. Nesse mesmo capítulo (23) de Mateus, estão agrupadas as principais recriminações de que foram objeto: eram “hipócritas”, despojavam as viúvas, fechavam as portas do Reino do Céu, transformavam seus prosélitos em filhos do inferno, eram “insensatos guias de cegos”, “sepulcros caiados”, herdeiros da maldição pelo “sangue inocente derramado sobre a terra”.

Na realidade, foram eles os mais ferrenhos opositores ao Reino de Deus, trazido pelo Messias. E apesar de as provas a respeito do Reino serem numerosas e evidentes, eles não só as rejeitavam como, se lhes era possível, silenciavam-nas ou ofereciam malévolas interpretações às mesmas.

Em suas almas, onde estaria fixada a raiz desse terrível pecado contra o Espírito Santo?

A mais perigosa das vaidades

Os fariseus tiveram uma origem virtuosa, quando procuraram se separar daqueles que se deixavam influenciar pelo mundano relativismo propagado pela Grécia, por volta de duzentos anos antes de Cristo. Porém, por falta de vigilância e ascese, como não raras vezes acontece, caíram numa das mais perigosas vaidades: a que se junta ao desejo de perfeição.

Ao abraçar as vias da santidade, é indispensável ao cristão colocar o interesse de Deus acima de toda a criação, como também, devotar aos interesses do próximo uma atenção maior do que aos seus, de ordem pessoal, e estes, confiá-los à Providência Divina, tal como ensina o salmista: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai glória” (Sl 113, 1).

Esqueceram-se os fariseus ser necessário pôr um freio em seu ânimo, para evitar sua imoderada exacerbação, praticando, assim, a essencial virtude da humildade, tal como a define São Tomás de Aquino: “A humildade reprime o apetite, para que ele não busque grandezas além da reta razão” 1. “Importa que conheçamos o que nos falta, em comparação com o que excede nossa capacidade. É próprio, pois, da humildade, como norma e diretriz do apetite, conhecer as próprias deficiências” 2.

Na ausência da virtude da humildade, lento mas profundo e fatal foi o processo de uma separação dos demais, em princípio boa e até necessária, para metamorfosear-se numa supervalorização de suas autênticas ou supostas qualidades morais. É suficientemente ilustrativo desse estado de alma, ouvir estas palavras, saídas dos lábios de um rabino, e recolhidas pelo Talmud: “Dizia R. Jeremias, chamado Simão, filho de Jochai: Eu posso compensar os pecados do mundo todo, desde o dia em que nasci até hoje; e se meu filho Eleazar morresse, poderia livrar todos os homens que existiram no mundo, desde a sua criação até hoje. E se estivesse conosco Jotan, filho de Uzias, poderíamos fazer isso de todos os pecados, desde a criação do mundo até o seu final [...]. Via os filhos do banquete divino, e eram poucos. Se fossem mil, meu filho e eu estaríamos entre eles; se fossem apenas dois, seríamos meu filho e eu” 3.

Quem se deixa levar pelo orgulho não respeita limites

Uma vez perdida a humildade, pela vã complacência consigo, o orgulho nos fariseus — como em qualquer caso — não mais respeitou nenhum limite. Ensoberbecido, colocou-se no centro do universo, exaltando as próprias qualidades. Não só desprezava as do próximo, como buscava exagerar os defeitos deste, sendo que às vezes o fariseu os possuía em maior grau.

Devido à sua incontida jactância, ele invariavelmente tinha razão em suas opiniões. Os fracassos sempre se davam pelo fato de não o terem procurado para consulta. Se muitos discordavam do fariseu, no fundo era porque — segundo ele — a sabedoria pertence a uma minoria seleta. Se todos eram unânimes com ele, sentia-se o dirigente. Se houvesse uma autoridade à qual ele devesse submissão, procuraria dominá-la, porém, como na maioria das vezes isto não era fácil, partia ele para a censura, a crítica e a sabotagem, acabando por ingressar pelas vias da desobediência. Ademais, sempre se manifestava ingrato, pois qualquer benefício que se lhe fizesse seria um ato de pura justiça e, por isso, nunca agradecia.

Como todo orgulhoso, o fariseu, ao se constituir o foco das atenções, não tolerava quem não girasse ao seu redor e, tomado de inveja, fomentava discórdias sempre que as circunstâncias as exigissem, lançando mão, inescrupulosamente, de detrações, calúnias, etc.

Nos fariseus, a hipocrisia se soma ao orgulho

Em essência, ele era um ególatra, mas, por sua refinada hipocrisia, apresentava-se respeitoso diante de Deus e justo em relação aos homens. Como nem sempre conseguia ocultar alguns de seus vícios evidentes, negava que assim o fossem.

Pobre fariseu! Não se dava conta dos males que despencavam sobre ele, pelo fato de procurar a glória onde não existia. Não percebia ele, o quanto o vício da soberba é o primeiro, não só em se manifestar exteriormente, como também em ser discernido por todos, com rapidez. Ele morreria, talvez, sem tê-lo explicitado, mas aqueles que com ele conviviam já o haviam catalogado.

Como poderia corrigir-se o fariseu desse defeito, uma vez que não queria reconhecer-se vítima de tão grave mal? Já se tinha por santo... Era-lhe muito difícil converter-se, pois tal como diz Santa Teresa, a humildade é a verdade 4.

Ser-lhe-ia indispensável que se visse, e até se sentisse, tal qual era; que discernisse claramente a procedência dos lados bons e maus de sua alma. Se assim fosse, reconheceria o bem que havia nele, para de imediato atribuí-lo a Deus. Da mesma forma, ao constatar sua maldade própria, suas faltas e seus pecados, atribui-los-ia à sua vontade deteriorada e perversa. Impostando assim, seu espírito, com flexibilidade admitiria que sem o auxílio da graça, o cristão não só deixa de cumprir de modo estável os Mandamentos da Lei de Deus, como até mesmo, é incapaz de pronunciar uma palavra boa. Ele jamais falaria de si próprio ou de suas virtudes e, se por razões de força maior, fosse obrigado a fazê-lo, imitaria São Paulo: “Gratia Dei sum id quod sum” — “Pela graça de Deus, sou o que sou” (1 Cor 15, 10).

Se entrasse por essas vias, seu “interior seria luminoso” porque seu olho seria limpo (cf. Mt 6, 22); já não mais teria vendadas suas vistas pelo amor próprio. Discerniria a presença de Deus a cada passo, em todas as circunstâncias de sua vida e, por outro lado, não faria ilusões sobre a debilidade, as inclinações e a malícia da criatura humana.

Faltava ao fariseu aprender com Santa Teresa o quanto é necessário andar na verdade: “Certa vez eu estava considerando a razão pela qual Nosso Senhor era tão amigo dessa virtude da humildade, e ocorreu-me — na minha opinião, sem ponderações, mas de repente — o seguinte: é porque Deus é a suprema Verdade, e a humildade consiste em andar na verdade; e é uma verdade muito grande saber que em nós nada há de bom, mas só miséria e nada; e quem assim não entenda, anda na mentira. E quem mais assim entenda agrada mais à suprema Verdade, porque nela anda” 5.

Se esse caminho trilhasse o fariseu, jamais poria sua confiança em si próprio, mas só em Deus, submetendo-se em tudo à Sua santíssima vontade. Teria para com os outros uma real caridade, como recomenda São Tomás de Aquino: “Devemos não só reverenciar a Deus em Si mesmo, mas também o que é de Deus, em toda e qualquer pessoa” 6 . “Pode alguém, sem falsidade, ‘reconhecer-se e mostrar-se como o mais indigno de todos’, levando em conta os defeitos ocultos que traz em si mesmo e os dons de Deus ocultos nos outros. Por isso, Agostinho diz: Estimai, interiormente, superiores os que vos são, exteriormente, inferiores. Do mesmo modo, sem fingimento, pode alguém se confessar e se acreditar indigno e inútil para tudo, pelas forças próprias, atribuindo a Deus toda a sua capacidade, conforme se diz: ‘Não é por causa de uma capacidade pessoal, que poderíamos atribuir a nós mesmos, que somos capazes de pensar; é de Deus que vem a nossa capacidade’” 7. Por isso mesmo, o fariseu, ao constatar os progressos espirituais realizados por auxílio da graça, na prática da virtude, deveria considerá-los como relativos, e reconhecer o quanto poderia ter correspondido mais aos dons de Deus.

Sublime exemplo do Divino Mestre

Eis algumas razões pelas quais encontramos nas Escrituras Sagradas tantas vezes o incentivo à humildade. Como teria sido outra a História, se os fariseus tivessem ouvido e amado o convite do Divino Mestre: “Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para vossas almas” (Mt 11, 29). Se estivessem presentes no ato praticado por Jesus, por ocasião da Santa Ceia, e recolhessem no coração as palavras por Ele proferidas logo após: “Dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, assim façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior do que o seu Senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou. Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob condição de as praticardes” (Jo 13, 15-17), teriam ademais, a verdadeira paz de alma e inteira felicidade.

Voltemos agora, nossos olhos à parábola proposta pela liturgia de hoje.

A parábola do fariseu e do publicano

 Disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros...

São interessantes as considerações feitas pelos comentaristas a propósito da presente parábola. Dentre elas se destaca a de Santo Agostinho que se relaciona com o versículo anterior: “Mas, quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a terra?” (Lc 18, 8). A fé é a virtude de quem põe em Deus sua confiança, e não em si próprio. “A fé não é do soberbo, mas sim do humilde. Contra a soberba, [Jesus] põe a parábola sobre a humildade” 8, que vai dirigida àqueles que não agradam a Deus com suas orações devido à sua presunção. A estima desequilibrada dos próprios méritos vai contra a realidade, sobretudo, quando o orgulhoso se julga impecável. Em tese, pela graça de Deus e pela existência do livre arbítrio, poderia haver um homem sem pecado mas, à exceção feita do Filho do Homem e de sua Mãe Santíssima, não há outro, conforme o Salmista: “Não entreis em juízo com o vosso servo, porque ninguém que viva é justo diante de Vós” (Sl 142, 2), ou melhor ainda, como afirma São João: “Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1 Jo 1, 8) 9.

A parábola se destina aos que supervalorizam suas qualidades, julgando-se santos e até mesmo impecáveis, tratando os demais com desprezo. Trata-se de uma luva feita à medida para caber em mão farisaica, ou daqueles que podem ser classificados como seus discípulos, imbuídos, portanto, do mesmo espírito. Três são os vícios visados: confiança em si próprio, presunção de santidade e desprezo pelos outros; vícios esses, contrários às virtudes: fé, humildade e caridade.

Subiram dois homens ao templo a fazer oração: um era fariseu e o outro publicano.

Eis uma simples frase penetrada de substanciosos significados. À mesma hora e no mesmo empenho de rezar, sobem ao monte Moriah, onde se localiza o Templo, dois homens: um fariseu e um publicano. O primeiro já é conhecido. O segundo pertencia à classe por todos considerada como de pecadores, odiada por cobrar impostos a serviço dos romanos. Segundo o juízo humano, o fariseu é justo, cheio de virtude e piedoso, e certamente irá proferir uma excelente prece. O outro, pelo contrário, pecador tão desprezível, não conseguirá senão atrair sobre si o escândalo de todos e a cólera do próprio Deus.

Inútil oração do fariseu

O fariseu, de pé, orava no seu interior desta forma: “Graças Te dou, ó Deus porque não sou como os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros; nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo o que possuo.”

Será difícil crer não ter sido real essa oração. Em sua divindade, quantas vezes não recebeu Jesus, das criaturas humanas, pensamentos semelhantes ou até mais orgulhosos do que esse? Pode-se falar em oração? Não! Trata-se de um profundo ato de orgulho, de um auto-elogio, e de um insolente desprezo pelos demais homens.

“Graças Te dou...” Nada melhor do que dar graças a Deus. É piedoso e meritório, mas essa impostação de espírito deve proceder da consideração de nosso nada, de um vigoroso sentimento de nossas fraquezas e misérias, como também da adoração a Deus por Sua infinita misericórdia, não só suspendendo os castigos que nos seriam devidos, mas muito pelo contrário, cumulandonos de dons e graças.

Não é, porém, essa a ação de graças do fariseu; ele se exalta a si próprio e insulta todos os outros. “Procura o que é que ele pede a Deus em suas palavras, e não descobrirás. Subiu ao Templo para orar e não quis rogar a Deus, mas sim louvar-se a si mesmo. Triste coisa é louvar-se em vez de rogar a Deus; além disso, acrescenta o menosprezo àquele que orava” 10. “Com isso, abriu pelo orgulho a cidade do seu coração aos inimigos que a sitiavam, a qual ele inutilmente fechara pela oração e pelo jejum: são inúteis todas as fortificações quando nelas há uma brecha por onde pode entrar o inimigo” 11.

A oração humilde salvou o publicano pecador

O publicano, porém, conservando-se à distância, não ousava nem sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito dizendo: “Meu Deus, tende piedade de mim, pecador.”

Atitude, espírito e palavras completamente diferentes das assumidas e formuladas pelo fariseu. No publicano, tudo é humildade, contrição e pedido de clemência. Usando de um costume que já não se vê mais nas Igrejas, batia no peito sem respeito humano. Contrariamente às “modas piedosas” de hoje, nada de leviandade de espírito, de dissipação ou de perpétua agitação; falava a Deus. Bem diferente de outros que na atualidade, entram nas Igrejas sem ter feito uma oração sequer. Muitos exemplos nos dá o publicano, inclusive no que tange à substância de seu pedido: “Meu Deus, tende piedade de mim que sou pecador”.

Sentença proferida por Jesus

Digo-vos que este voltou justificado para sua casa e o outro não; porque quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado.

\“Na hora de entrar no Templo, os dois personagens, embora pertencendo a categorias religiosas e sociais diferentes, eram, no fundo, muito semelhantes. Na hora de sair, são radicalmente diferentes. Um estava ‘justificado’, ou seja, era justo, perdoado, estava em paz com Deus, tinha sido renovado. O outro permaneceu como era no início; mais ainda, talvez tenha piorado sua posição perante Deus. Um obteve a salvação, o outro não” 12.

Fixemos bem nossa atenção: trata-se aqui de uma sentença proferida pelo infalível e soberano Juiz, o próprio Filho de Deus, não poucas vezes diferente da dos homens. Se, sem as luzes da graça fôssemos chamados a escolher um dos apóstolos para se tornar o primeiro dos Pontífices da Santa Igreja, não seria exagerado imaginar que a uns julgaríamos pretensiosos, a outros, pouco ativos, ao próprio Pedro, exagerado e imprudente. Quiçá, antes de se tornar traidor, não teríamos escolhido a Judas pela sua grande discrição, segurança e habilidade em finanças, tanto mais que ele chegou a criticar Madalena pelo desperdício de dinheiro em perfumes para o Mestre, quando havia, então, muitos pobres e necessitados. Por aí nos damos conta do que seria da própria Igreja se não fosse o Espírito Santo a dirigi-la; e do que será de nós se não nos submetermos às Suas inspirações.

A humildade levou ao céu um ladrão

A liturgia de hoje bem pode nos ser útil para um proveitoso exame de consciência: até onde somos humildes como o publicano? Ou haverá em nossas almas, alguma fímbria do espírito farisaico? Qualquer que seja o resultado desse exame, lembremo-nos de que: “A humildade levou ao Céu um ladrão, antes dos Apóstolos. Ora, se unida aos crimes ela é capaz de tanto, qual não seria seu poder se estivesse unida à justiça? E se a soberba é capaz de quebrar a justiça, o que não conseguirá caso se aliae ao pecado?” 13.